domingo, 10 de novembro de 2013

Dois breves diálogos de rodoviária

Bilheteria

- Oi. Me vê um bilhete no próximo pra Pasárgada, por gentileza?
-Claro. Pode ser no corredor?
-Sim, sem problemas...


 Plataforma 13

- Meu coração ainda está acelerado 
 -Eu sei, o sinto daqui

quinta-feira, 17 de outubro de 2013

Nota de rodapé

Pra ser lido ao som de Duke Ellington & His Orchestra

- Você vai escrever alguma coisa, Marina?
-Não sei...Acha que eu deveria?
-Isso depende.
-Do que exatamente?
-Das suas expectativas...
-Acho que se eu escrevesse algo não seria nada sobre expectativas...
-Seria sobre o que então?
-Uma explicação ou sei lá.
-Explicação?
-É. Sinto uma necessidade de explicar o desenho, Carola...Não é todo dia que entrego desenhos pra pessoas que não conheço. Nem sei o nome dele...
-Acredite, sei muito bem como se sente. Então, explique-se.
-Disso tenho certeza, niña. Mas como explicar?
-Ah, isso já é mais com você do que comigo.
-Tem razão.
-...
-É que a música dele me fez tão bem! Eu não sei, mas quando senti a música, saí do metrô correndo! Era alguma coisa que fazia o ar vibrar sabe?
- Mexeu mesmo com você, não?
-Mexeu tanto comigo que, quando dei por mim, o estava desenhando, quase sem querer...
-Então você continuou desenhando
-Sim, continuei. É como se fosse um agradecimento, sabe?
-Acho que sei...
-As pessoas nem paravam pra escutar, Carola... Passavam correndo, jogavam moedas no case do sax e só...
-Então teve a ideia do desenho.
-É, foi mais ou menos assim... Moedas são ridículas perto da música dele, sabe?
-Pelo jeito que você fala... Sei lá, eu gostaria de ganhar o desenho.
-Sério? Carola, você acha que isso é loucura?
-Marina, claro que não é loucura!
-...
-Talvez só um pouquinho de loucura.
-Só um pouquinho...
-...
-Acho que eu escrevi alguma coisa.
-Sim, escreveu...
-Vou deixar por isso mesmo, tudo bem?

-Por mim...

domingo, 13 de outubro de 2013

Sem Palavras

Para Rebeca, que me dava abraços gostosos

Encontrei Annabel outro dia na biblioteca. E ela não parecia saudável. Quer dizer, ela até que parecia bem, mas tinha alguma coisa naqueles gestos que não sei... Talvez fosse o jeito quase mecânico que ela virava as páginas dos livros, ou mexia no cabelo, ou olhava para as coisas. Não sei, mas aqueles gestos não eram de Annabel, entende? Todos aqueles livros abertos e espalhados pela mesa, fora os livros fechados e empilhados ao lado da mesa, não eram o padrão. Pra começar, Annabel nem gosta de se enfiar em bibliotecas! Ela prefere estudar ao ar livre, nos banquinhos e pracinhas que se perdem por aí... Mas naquele dia ela estava ali, dentro da biblioteca, olhando cada livro, folheando sem vontade, jogando o cabelo para trás de cinco em cinco minutos, dando pancadinhas com a caneta em seu bloco de anotações sem nenhuma anotação.
            Cheguei de mansinho perto dela, tentando ter certeza de que era realmente Annabel e não outra pessoa. Cheguei à mesa, puxei uma das cadeiras que ainda não estava ocupada por livros e sentei-me. Ela demorou um pouco para perceber que eu estava ali. Ergueu os olhos lentamente para mim e sorriu de leve. Sorri em resposta e depois perguntei como ela estava se sentindo, o que estava se passando. Annabel, então, começou a falar com um tom pouco usual, mais débil e triste.
            Contou-me que domingo tinha saído de casa para andar de bicicleta no centro, coisa que sempre gostava de fazer quando tinha algum tempo livre. Gostava de fazer isso porque aos domingos o centro era mais fresco e vazio, assim podia melhor apreciar os prédios, sentir as desigualdades, os sons da cidade.  Sem contar que aos domingos a chance de atropelar alguém era bem menor. Ora, vocês sabem, eu só a conheço por causa de um desses acidentes envolvendo bicicletas e o centro de São Paulo. Em fim, naquele domingo Annabel pedalava pela São Bento quando, às nove horas da manhã em ponto, os sinos do mosteiro começaram a tocar. Como de costume, ela logo fechou os olhos para experimentar a acústica da antiga rua.
            Bem nessa hora, entre a terceira e a quarta badalada, a roda da bicicleta tropeçou num desses bueiros do largo do café e Annabel caiu, espalhando aos quatro cantos da rua, seus pertences, cabelos, cadernos e partituras.  Deve ter sido uma queda bem ruim, afinal não deve ser nada agradável cair bem num meio de um teste desses. Não é todo dia que podemos escutar os sinos do mosteiro, andando de bicicleta em plena São Bento. Por isso entendo Annabel ter ficado ali, caída na rua, até a sexta badalada soar feliz. Começou a se levantar devagar. Como disse, a queda deve ter sido bem ruim. Quando finalmente tinha conseguido colocar-se de pé, isso lá entre a sétima e a oitava badalada, uma dessas chuvas torrenciais que só acontecem em São Paulo, desabou. Num piscar de olhos, Annabel viu todas as suas coisas, seus cadernos, suas partituras, o brilho de seu olhar e suas palavras, escorrerem para dentro do mesmo bueiro que a derrubara algumas badaladas antes. Disse-me que por pouco sua alma também não foi tragada. Havia, por pura sorte, a segurado com a ponta do sapato.
            - Desde então estou assim, sem palavras - Colocou, por fim.
            Claro que eu a abracei e dei aquele apoio mínimo que se espera de um amigo. Disse talvez fosse melhor descansar um pouco, afinal hoje já é sexta e ela continua caçando palavras nessa pilha infinita de livros. Imagine que loucura deve ser procurar suas palavras em outras pessoas! Por isso, depois de passar dias e dias pensando em Annabel e nessa situação complicada, tenho uma proposta pra vocês: acho que devíamos dar palavras para Annabel. Certo, vou explicar. Devíamos deixar palavras por onde Annabel costuma andar. Assim, além de poupar a pobre garota desse árduo trabalho de pesquisa nesses livros tão poeirentos, a deixaríamos muito feliz! Ah, e não precisam ser palavras somente em formas de palavras. Podem ser em formas de abraços, carinhos, breves, parcerias musicais, semibreves, cafunés, mínimas, tangos de Piazzolla, semínimas, picnics,  colcheias, livros, semicolcheias, danças malucas, partidas de stop, fusas, docinhos , tortinhas vegetarianas semifusas... Podia citar uma infinidade de coisas... Ora, vocês sabem como Annabel é adorável.

(Não deixem de escutar Piazzolla !)

segunda-feira, 7 de outubro de 2013

Mais sobre Carlos

- E se não eu fosse apenas uma pessoa? Fosse uma coleção?
Fez a pergunta bem quanto eu erguia meu garfo, vitoriosa, após ter capturado o último tomate cereja do prato, depois de muito esforço, admito. Ora, vocês sabem como se comportam os tomates cerejas quando tentamos espetá-los. Então Carlos me fez a pergunta, uma daquelas perguntas que só ele sabe como fazer. Uma daquelas perguntas que entram em cada poro do nosso corpo, que fazem o coração acelerar e a mente dar cambalhotas. Daquelas perguntas que nos fazem ficar com o garfo suspenso a meio caminho da  boca meio aberta. Fez a pergunta e ficou esperando a resposta, com aqueles olhos brilhantes e escuros mirando meu rosto abobalhado. A única coisa que pensei, logo depois da pergunta foi, se  conseguiria dar uma resposta... Minhas palavras sempre soam ásperas demais quando falo de Carlos, quando tento achar respostas para Carlos.
Não sei direito desde quando essa cena se repete: Carlos me faz uma pergunta ou me fala alguma coisa, ou me mostra um poema, ou uma música, ou um pedaço da sua alma e eu fico assim, abobalhada, com o garfo a meio caminho da boca, com uma imensa vontade de abraçar Carlos, beijar-lhe a testa. Pra ser sincera não sei direito desde quando o conheço, pois cronologia é algo que Carlos ignora. Tenho a impressão de que ele sempre esteve aqui junto de mim. Como e onde, isso é que não sei...
A primeira vez que o vi,  ele estava sentado em sua mesa, extremamente ordinário. Camisa engomada, relógio bem atado ao pulso. Naquele tempo não nos falávamos, mesmo nos vendo todo dia por um ao ou mais.
Mas um dia, isso numa quinta-feira, doze de maio, começamos a nos falar. Desse doze de maio em diante eu simplesmente passei a conhecer Carlos, mas não por ele ter me contado coisas entre um gole e outro de chá de lichia. Conheci Carlos porque  ao acordar naquela manhã, ele, de certa forma, estava comigo. E ficou comigo o resto do dia, como aquele gosto de dentifrício que não sai por completo da boca após escovarmos os dentes.
Mais tarde naquele mesmo doze de maio, contou-me que havia ocorrido quase à mesma quando acordou. Então eu sabia muito sobre ele, da mesma forma que ele passou saber sobre mim. Ele me conhece, eu o conheço e ponto. Conheço suas perguntas, seu jeito de andar e falar, suas pequenas manias, seu jeito de escrever, de pegar meu rosto, meus poemas, meus desenhos. Conheço aquele olhar que Carlos faz quando sente que seu coração está inchado. Conheço aquele olhar que Carlos faz quando sabe que estou pensando nisso tudo ao invés de dar-lhe uma resposta. Aquele olhar que ele faz, com esses olhos brilhantes e escuros, duas jabuticabas, que me olham por cima da mesa esperando uma resposta. 
- E então? O que você acha?
- Acho que isso é incrível!
- Mesmo?
-Claro que sim, Carlos!!
-Ei, onde você está indo?
-Vou terminar aquele desenho.
- Ainda aquele desenho? Podia jurar que ele estava terminado...
-Eu terminei o desenho, mas esqueci a nota de rodapé... 

PS: Não deixem de ler .Penteando Frases

sábado, 28 de setembro de 2013

Poeminha perdido

Era uma vez um poema
Poema escrito numa folha solta
Folha solta que virou marca página
Marca página que ficou num livro
Livro que foi devolvido à biblioteca

Tempo, pra que?

Fernanda não usa relógios
Nem os de ponteiro
Porque lhe atormenta o barulho
Que o tempo faz ao passar
Nem os digitais
Por ter sempre a impressão
Dos números estarem sempre distraídos
Deixando os minutos muito soltos
Deixando o tempo descontínuo

Fernanda não confia nos relógios
Procura buscar as horas por si mesma
As busca no céu, na sombras, nos bancos das pracinhas
Nos livros, no ar, na copa das árvores
E não pense que por isso
Ela sempre se atrasa, perde a hora
Em matéria de tempo, amigos,
Fernanda pouco se equivoca

sábado, 21 de setembro de 2013

Naquele pedaço de parque

Ali,
Naquele pedaço de parque,
Estendidos na grama
Cabelos
Mãos
Almas
Memórias
Confundem-se

Ali,
Naquele pedaço de parque
O mundo volta a plantar bananeira
E não existem problemas
Atrasos
Provas
Toda sorte de cansaços


Ali,
Naquele pedaço de parque,
Temos sempre dezesseis anos

Mais algumas quadras

Naquela época
Eram os passarinhos,
Não os jornalistas,
Que anunciavam a primavera

E éramos tão leves!
Escrever era tão fácil!
Como se carregássemos a poesia
Na sola dos pés descalços

Escrevíamos amor
Com arpejos em sol aberto
Pinceladas em um canson
Rabiscos de crayon

Hoje escrevemos saudade...

domingo, 15 de setembro de 2013

Saudade

Vou te escrever baixinho
Porque periga o azar ver.
Qualquer dia, mi cariño
No portão da sua casa
Chegarei bem de mansinho.
Sem aviso e sem alarde
Sem dar tempo ao desencontro
De surpresa, por acaso
Chegarei devagarinho
Roubar-te-ei um abraço

Para Carola, mi cariño

sábado, 7 de setembro de 2013

Carta a Julia

Dedico esse conto à Carolis, por ter me ensinado coisas tão bonitas

***

Querida Julia,
         te escrevo agora como última tentativa de mitigar esse desassossego que  se apossou de mim à algumas semanas.Ah, mana, tem acontecido cada coisa por aqui! A primeira vez que ocorreu foi numa dessas tardes quentes de mais, em que o tédio fica preso entre os ponteiros do relógio e o tempo custa a passar. Quando entrei no meu quarto reparei que O Jogo da Amarelinha não estava em seu lugar de costume, entre 62 - Modelo para amar e Os prêmios , mas sim no meio dos meus dicionários, duas estantes  acima.  Achei que Nico tinha feito uma de suas brincadeiras. Ora, você o conhece, sempre interferindo na ordem natural do meu caos. Recoloquei o livro de volta ao lugar, um pouco contrafeita, é verdade,  e comecei a pensar no que iria fazer para vingar-me. Como te disse, o tempo custava à passar, então não sei precisar direito quanto demorou para que eu entrasse novamente no meu quarto e encontrasse o livro fora do lugar de novo. Sei que a primeira coisa que me passou pela cabeça ao vê-lo lá, entre meus dicionários, pela segunda vez, foi de que eu não havia colocado-o de novo em seu lugar, religiosamente entre 62 - Modelo para amar e Os prêmios.  A segunda foi uma sensação de que finalmente havia enlouquecido.  Juro que pensei estar louca. Julia, estava só eu no apartamento! Nico havia saído pela manhã e ainda não tinha retornado, não poderia ter sido ele. Não a segunda vez pelo menos...Recoloquei, de novo, o livro no lugar. E não é nenhuma tautologia, mana. O recoloquei duas vezes no lugar!
         Então se passaram alguns dias e eu não o movi de seu lugar. Prefiro as edições em espanhol para minhas anotações, você bem sabe. Passaram-se alguns dias, igualmente quentes e tediosos, e eu resolvi esquecer o incidente. Nem cheguei a comentar com Nico. Alguns dias até que tornei a olhar para meus livros novamente. Ele não estava lá, Julia. Não estava nem entre 62 - Modelo para amar e Os prêmios, nem entre meus dicionários.Não estava no meu quarto, nem no meu apartamento. Julia, te juro que não estava! Revirei todos os cômodos, gavetas, armários. Revirei cada canto e encontrei de tudo um pouco, menos O Jogo da Amarelinha! Nico até se assustou quando chegou e deparou-se com o estado da casa. Com meu estado...Expliquei pra ele toda história e não sei se ele acreditou muito, sabe. Disse-me que talvez eu precisasse de ar fresco, então fomos dar uma volta. E quando voltávamos para casa encontrei o livro num banco da Marechal Deodoro. Mana, era o meu livro! Meu livro, com minhas marcas, com aquele  bilhete no Capítulo 81! Nico ficou quase tão atordoado quanto eu. Pobrezinho!
         Conversamos, mais tarde , e chegamos à conclusão de que talvez o livro esteja sufocado...Sabe, talvez ele só precise de um pouquinho de ar fresco. Afinal não deve ser nada confortável viver entre dois outros livros.Deve ser apertado e sem nenhum tipo de privacidade... E desde então comecei a levar O Jogo da Amarelinha comigo pra todo lado. Aulas, parques, museus, passeios de metrô. Mas isso foi à algumas semanas..E ele se comportou, Julia. Até agora estava muito comportado, não fugia para muito longe. No máximo trocava de prateleira. Mas isso é porque é ruim viver entre dois livro, mesmo se for entre dois romances do Cortázar. Estava muito comportado, Julia, estava. No passado, mesmo que imperfeito. Ontem ele fugiu de novo. Abri minha mochila e ele simplesmente não estava lá, mana. Sumiu, pluft! Nico e eu achamos que nesses dias quentes, em que o tédio fica preso entre os ponteiros do relógio e o tempo custa a passar,  O Jogo da Amarelinha goste de se esconder, como se fosse uma palheta ou uma tampa de caneta. Convidando-nos à uma nova busca pelas ruas e estações de metrô.Então, num piscar de olhos, estamos novamente jogando com o livro. Procurando-o por toda a cidade. Mas isso deve ser por causa do calor.Afinal, deve ser difícil viver espremido entre dois livros, mesmo se forem de Cortázar, nesses dias tão quentes e tediosos...

sexta-feira, 23 de agosto de 2013

Segunda parte

Atenção! A palavra é? E assim começava a aula mais esperada por mim. Sempre essa introdução depois de alguns minutos entre a chamada e a arrumação de alguns papéis. Assim que Orestes entrava na sala e postava-se em sua mesa, me encaminhava até ele. Então o ajudava, algumas vezes, com a chamada, (Número um está presente? Número um? Ausente? Ausente, certo...), conversava sobre qualquer coisa que estivesse acontecendo, pegava um número do Cadáver Semanal. E então vinha a palavra. Nunca sabia ao certo qual era a palavra, nunca a anotava. Na verdade só passei a ter anotações sobre aulas de história esse ano. De qualquer forma as aulas, aqueles cem minutos semanais que escorriam pelos meus dedos, não foram o espaço em que mais aprendi com o Orestes. O Orestes não me ensinou sobre datas, nem guerras ou eventos ditos importantes. Foi além...Me ensinou algo que não tem nome.
Era algo que corria pelo ar da ETECAP, preenchia cada espaço, chacoalhava a copa das árvores, enquanto estávamos em qualquer luta. Era algo que entrava nessa caixa de carne que chamamos de peito e nos dava um certo sentido. A Flavinha sempre dizia isso...
E quando nos preparávamos pra sair à rua eram aquelas palavras que nos davam força. Todos obedientes escutando com atenção o que Orestes  tinha a nos dizer. Todos nós, de preto entre faixas e tintas, escutando atentamente aquelas palavras. E Orestes, um orador admirável que faria muito sucesso em assembleias estudantis, nos dizia num tom apaixonado: Quando olho para vocês, jovens indo a luta, penso que meus amigos, amigos que vi serem torturados e mortos pela ditadura militar, não sofreram em vão!. Escutávamos, sentados no chão do primeiro pátio. Eu citarei agora o poeta Gonzaguinha :Eu vou à luta com essa juventude, que não foge da raia a troco de nada! Então eramos um só. Nossos comitês, panfletos, coletes, apitoscartazes, e aquela chuva que sempre acompanha os etecapianos durante as passeatas.Não eram como as de junho e julho desse ano. Tinham alguma coisa à naquelas palavras.Como aqueles versos de Cecília Meireles, naquela aula sobre inconfidência, que na voz do Orestes ficaram tão sublimes. 
Ai, palavras, ai, palavras
Que estranha potência a vossa!

Primeira parte

Foi uma terça. Sim, uma terça, oito de fevereiro do ano de dois mil e dez. Lembro-me muito bem desse dia, por que foi o segundo dia dos três melhores anos da minha vida. E eu estava no corredor central da ETECAP quando reparei pela primeira vez nele. Um veterano apontou vagamente para o senhor que descia as escadinhas que levam do primeiro pátio ao dito corredor e disse: Esse é o Orestes , o melhor professor de história que vocês podem ter nessa escola!. O tal professor vestia-se com calça verde e uma camisa de flanela, tinha o cabelo raspado  e usava óculos de lentes bem grossas e de armações pretas, andava meio curvado, com uns papéis nas mãos.
E esse mesmo professor entrou na sala 411 logo após o sinal . Reparei melhor nele. As feições muito finas, um nariz diminuto, bochechas rosadas, olhos de um azul indescritível ampliados pelas lentes dos óculos. Eu, que sempre soube que me tornaria uma historiadora, demonstrei, desde o início, um interesse muito grande em cada gesto dele. Orestes, com aqueles passos meio arrastados, encaminhou-se para o centro da sala e aguardou o silêncio. Pensei que ele iria começar uma lenga lenga sobre como se divide o tempo, riscar aquela linha tão chata e comum e marcar algumas datas.Mas não.Quando ele veio, iniciou sua fala. Fala da qual não me lembro muito, por que as palavras do Orestes nunca passaram pelos meus ouvidos. Sempre vieram direto para o lado esquerdo, sempre esquerdo, do meu peito. E aquela aula, aquele jeito tão apaixonado que Orestes fazia com que as palavras saíssem de seus lábios e me encontrassem, foram me consumindo. Eu só conseguia concordar, quase que me levantando de tamanha empolgação. O olhava  entre um sentimento súbito de admiração e um atordoamento mais súbito ainda. Olhava aqueles olhos que faiscavam conforme aquela voz que ia se inflamando. Não percebi o tempo passar e quando dei por mim o sinal ( Uma censura! como repetia sempre Orestes) soou, anunciando a segunda aula. Ele então nos olhou uma última vez e com uma voz um pouco mais branda disse : Sei que talvez a maioria de vocês não tenha entendido muita coisa do que eu falei, mas se um de vocês apenas conseguiu entender, então sei que o que eu disse não foi em vão.
Ele então se virou pra juntar suas coisas e voltou-se para a saída. Me levantei, com um pouquinho de pressa, é verdade, e caminhei até ele. Quando o alcancei, já estávamos no corredor. E a única coisa que eu consegui dizer foi : Professor, eu entendi. Orestes então, com aquele jeito sempre meio encabulado, sorriu.

sexta-feira, 9 de agosto de 2013

(sem título)

E basta fechar os olhos
que o ambiente se transforma
O ruído longínquo dos carros
O zumbido dos aviões
A orquestra dos pássaros
Um ou outro grilo
Uma ou outra cigarra
A grama por baixo de mim
O sol acariciando meu corpo
O vento, de leve,
tirando as árvores pra valsar.
E basta fechar os olhos e pronto.
Voltei pra casa

segunda-feira, 5 de agosto de 2013

Cadê?

Onde está papai?!?
Perguntam, desolados, os filhos.
Onde está meu marido?!?
Pergunta, em pranto, a esposa.
Cadê Amarildo?!?
Gritam as ruas.
O que fizeram de Amarildo?!?
Brandam as favelas.
Por que mataram Amarildo?!?
Por quê?
Pra que....
Enquanto as notícias nos jornais
Vidraças quebradas,
Lixeiras queimadas,
Mascaram o sangue,
Sangue de Amarildo e tantos outros,
Nas fardas dos PMs.
Nas garras do Estado.

domingo, 28 de julho de 2013

Última parada

Desembarque do lado esquerdo do meu peito.
Meu coração já está lotado.
E não suporta  mais,
o pobre diabo,
bater-se por sua causa.
Numa última tentativa,
desesperado,
cai ao seus pés.
Com fio de voz que lhe sobra, implora:
Suma de uma vez!
Vá embora!

sábado, 20 de julho de 2013

Ibérica

Éramos
E não Somos
Pretérito imperfeito do indicativo
O mesmo pretérito infinito
Nunca o presente
Nem ao menos um passado acabado
Sempre o Éramos
Nunca o Somos

A eterna sensação de perder,
Por uma semifusa,
Alguma coisa no tempo.
Por ter hesitado
ou
Se adiantado no momento errado
Perco o tempo

Esse óleo rançoso
Escorre pela minha testa
Cai sobre meus olhos
Essa máscara de lembranças
Tapa minha visão
Rouba de mim um futuro
(Que eu mesma forjei)
Sempre éramos
Nunca somos

quinta-feira, 18 de julho de 2013

Instruções para criação de memórias

A criação de memórias é uma das atividades mais complexas que existem no mundo. Isso se deve ao fato das memórias (esses seres minúsculos, de uma cor amarelo vivo  que  habitam nosso cérebro e por vezes nossa caixa torácica  ) serem muito complicados e portarem um humor extremamente variável.
Para criá-las de maneira adequada,  o criador dele dispor de muito tempo livre, pois as memórias são demasiado carentes e necessitam de atenção a todo instante. Quando, por qualquer motivo, o criador não dá sua dose diária de atenção ( explicarei mais adiante como tal dose deve ser ministrada ) para as memórias, elas tornam-se muito rebeldes.
Essa rebeldia, misturada com a alta sensibilidade das memórias,  tem níveis variados. As memórias podem, por exemplo, deixar de fornecer lembranças ao criador , coisa muito comum nos dias de prova e naqueles dias que devemos renovar os livros de alguma biblioteca. Elas também podem se comportar como as palhetas, escondendo-se de tal forma que  é impossível localizá-las. Nesses casos a atitude mais correta é esperar que elas voltem, talvez num bolso daquela calça que nunca usamos, ou quem sabe no fundo na nossa mochila. Porém, nos casos mais extremos, quando as memórias ficam meses sem receber de seu criador nenhum pedacinho de tempo ou atenção, elas simplesmente abandonam o criador para todo sempre, deixando-o desolado sem lembrar-se de nada. Nem mesmo do próprio nome.
Afim de não construir uma relação conturbada com suas memórias, o criador deve então fazer um convite à um jogo de memórias.  É um jogo muito simples de se  aprender a jogar, mas  difícil por que exige uma enorme concentração e parceria com suas memórias. As partidas podem ser muito rápidas ou infinitas, tudo depende da disposição do criador para o jogo, pois as memórias sempre estão entusiasmadíssimas para uma partida. O jogo começa quando as memórias desafiam o criador a lembrar dos mais insignificantes detalhes de qualquer coisa que ele já tenha vivido. Por exemplo, o desafiam a lembrar-se do sobrenome do seu professora de geografia da sétima série, ou então que meias usava no dia que fez isso ou aquilo. As partidas só terminam quando, num misto de alívio e vitória, o criador consegue recuperar a informação buscada no meio de tantas outras. Os desafios vão ficando cada vez mais complexos, com o passar das partidas. Algumas vezes a partida sós e encerra quando o criador (agora mais do que nunca um jogador) reconstrói dias inteiros. Como por exemplo o que ele fez à quatro anos atrás nessa mesma data, o que comeu, o que vestiu, ao que falou, com quem estava, como o clima estava.
A única regra rígida desse jogo é a impossibilidade de consultar qualquer tipo de fonte. Lembrar é algo que não permite qualquer pensamento lógico ou qualquer tipo de cadeia de pensamento. Lembrar é , antes de tudo, instinto. Por isso o jogador deve se deixar levar por seu instinto durante as partidas até esbarrar num inútil e trivial detalhe que ele não consegue reconstruir : qual música eu escutava naquele primeiro de dezembro enquanto estava no 2.49? Uma parida como essa pode durar a vida inteira.
 São inegáveis os benefícios de memórias saudáveis, muito dóceis e companheiras. Podem nos dar momentos muito contentes, reviver momentos felizes com uma espantosa qualidade de detalhes, lembrar-se de qualquer sorte de coisas. Mas que fique bem claro que memórias saudáveis não são como as de Funes, o memorioso, um viciado no jogo da memória que acabou por torná-las monstrinhos petulantes e famintos de atenção. Memórias saudáveis não nos fazem lembrar de tudo, mas sim saber onde buscar informações sobre isso e aquilo...



terça-feira, 16 de julho de 2013

Uma carta não enviada

Não. Nunca foi uma escolha. Meus gestos, seus gestos, os gestos dele, nunca foram por escolha. Nunca, por que foram por Amor. E será o Amor algo que se possa escolher??? Sinceramente, creio que não.Se amamos de verdade, como sei que amamos,  não escolhemos.
Não escolhi, de modo algum, reparar naqueles olhos. Nem escolhi fazer para o que chamava de "o Aquariano" aqueles péssimos sonetos. Como sei que você também não escolheu reparar naqueles olhos...
Ah...Seria tão mais fácil se tivéssemos escolhido!Evitaríamos tanta coisa... Seriamos mais um caso corriqueiro, desses que passam por vezes em programas sensacionalistas por acabarem numa briga de garotas por um cara, ou, nos casos mais drásticos, na morte de alguém. Se fosse uma escolha, nossa história seria incrivelmente, pateticamente, entediantemente comum. Seria uma dessas histórias feias...
Mas nós amamos. E o Amor é tal qual uma chuva que pega algumas pessoas, sempre alienadas à previsão do tempo, desprevenidas. Uma dessas chuvas que nos lava, que encharca nossos ossos.
 Se carregássemos  nossos guarda-chuvas, ou capas,  no momento que, na esquina da Benjamin Constant com a Glicério, o temporal se iniciara e ,por qualquer motivo, resolvêssemos nos molhar até os ossos nossos gestos não seriam de amor. Por que escolhemos nos molhar, por preguiça de vestir a capa ou por achar que a calçada da Benjamin é demasiado estreita para se caminhar com um guarda-chuva aberto, não importa muito. E não escolhemos. Nós três fomos pegos de surpresa pela chuva. Sei disso. Foi um arrebatamento, não uma escolha. Nunca uma escolha.Por que se escolhêssemos, isso poderia se tornar uma inimizade, muito comum no nosso mundo nesse mundo que competimos até por amor. Competir por amor, onde já se viu? Amor é a coisa mais libertária que existe! Amar não comporta competição...
Mas nós amamos...E todas as frases dessa história, minha renuncia, seus poemas, as músicas dele, nossas cartas. Cada ponto e cada palavra que escrevemos foram, e espero que ainda sejam, gestos de Amor




quinta-feira, 11 de julho de 2013

Quadras da saudade II

Naquela época
Todos os dias
Todos os acordes
Vibravam em amarelo

Nas salas, ruas e corredores
Sentávamos ao chão
(sem pudor algum)
Pois assim nos sentíamos mais humanos

E festejávamos
Sem ter nenhum motivo
Afinal, pra que um motivo?
Éramos felizes e ponto de exclamação!

E recitávamos nossos amores
Desenhávamos, dedilhávamos,
Por cima das árvores
Por todos os cantos

Quadras da saudade

Naquela época
Nossos pés eram livres pra brincar na grama
Sem serem repreendidos pelos sapatos
E todos nós éramos só abraços

Naquela época
Era simples demais sorrir
Simples de mais amar
E como amávamos!

Naquela época
Qualquer coisa
Flores, cores e som
Virava arte em nossas mãos

Naquela época
Trasbordávamos poesia
E nossos corações eram tão grandes
Que não mais cabiam em nossos peitos

sábado, 29 de junho de 2013

Arquitetando

Construo,
mas lacunas do silêncio,
meu castelo imaginário.
Faço  do vento, sonho e cal
meu vil material da obra.
Os alicerces são firmados
nas incertezas do meu futuro.
Cada tijolo  colocado
segue um ritmo obscuro.
No projeto original
os vitrais eram lembranças.
Mas o perdi numa mudança
agora só tenho rabiscos...
Meu monumento, insosso e fraco,
quando ficar completo,
será só mais um numa paisagem
cinza e dura de inverno.

domingo, 2 de junho de 2013

Taksim

Podem mandar os tratores,
as correntes e as serras elétricas.
Podem mandar os jatos d'água,
os canhões e o gás lacrimogênio.
E os agentes, as bombas,
a tropa de choque e a cavalaria.
Mandem também os paraquedistas,
fuzileiros e infantaria.
Manipulem a mídia.
Cortem a internet.
Fechem as estações de metrô.
Bloqueiem as estradas.
Façam logo um cerco.
Chamem os tanques e os snipers.
Destruam as barricadas.
Peçam reforços à OTAN.
Nos chamem de terroristas.
E chamem quem quiser pra ver
seu exército sobre a cidade marchar
Mas não será hoje,
nem amanhã, nem depois,
que os senhores conseguirão nos calar.

sábado, 1 de junho de 2013

Boticário

Guardaria,
se pudesse,
teu abraço num frasquinho.
Desses que cabem no bolso interno das jaquetas,
ou no bolso pequeno das calças.
E quando chegasse aquela hora,
aquela hora do domingo
que tudo se transforma numa tortura do tempo,
te abraçaria.
Por que  seu abraço,
e tão somente ele,
livra-me de tudo.
Do tédio,das expectativas, do luto
dos anseios, das paixões,
das minhas obrigações,
do tempo,do espaço
Livra-me de mim.

terça-feira, 28 de maio de 2013

Balada do Memorioso ou Ode à Funes

I
Tudo que toco.
Tudo que sinto.
Já toquei e senti outrora.
Não há uma sequer lembrança que escape
das malhas da minha memória

II
Esquecer é uma arte
na qual não sou iniciado.
E o esforço por mim empregado
pra apagar de minha mente
uma lembrança qualquer
é em vão desperdiçado

III
Aos meus olhos
sobrepõe-se dois mundos mal acabados.
Tudo que por mim é visto
não passa de um futuro passado.
Minha visão nada mais é
que um tipo de disco arranhado.

IV
Vivo num imperfeito pretérito.
Guardando à sete chaves
cada particularidade. 
E por um impulso compulsório,
abstrair não posso.
Pensar não consigo.

V
Sinto-me sufocar.
Sinto memórias na minha traqueia.
Envolvendo meus pulmões.
Comprimindo meus alvéolos.
E o ar que respiro já nasce velho.

VI
Morreu aos dezenove anos,
o garoto Ireneo Funes,
asfixiado por suas lembranças.



Inspirado no conto "Funes, o Memorioso" de Jorge Luis Borges





sábado, 4 de maio de 2013

Um coração fora do peito

    O que hoje é um velho apagado já foi jovem.Um jovem tão incomum quanto podia ser. Onde hoje existe uma penugem alva, antes havia uma basta cabeleira castanha. Os olhos brilhantes de outrora são apenas borrões opacos hoje em dia.E os valores corroídos pelo tempo ainda reluziam num tépido sorriso. As mãos, agora vazias, carregavam um coração. Um coração fora do peito
    Foi numa noite, dessas que faz muito calor, que o coração do jovem saltou do peito para a liberdade das mãos. Contou-lhe que já não suportava a jaula de carne. Sentia-se inchado e grande de mais para caber no meio das costelas. Queria crescer mas, sentir mais. Ouvir e cantar, compor e ver as estrelas. Queria abraçar o mundo.
    Assim caminhava o jovem, com a cabeça meio inclinada e passos arrastados, levando seu coração pra passear. Iam juntos ao campo colher amoras, aos rochedos  ver o mar e aos parques ver as pessoas passarem.
    As pessoas...Nenhuma delas gostava de ver o jovem e seu coração tão grande pro ai. Achavam um desrespeito o jovem cuidar de um coração fora do peito. E ainda o alimentar com tudo que há de belo  nas coisas mais inusitadas desse mundo! E na surdina passaram a bolar uma emboscadas para dar fim a essa heresia
Então, num dia bonito de outono, enquanto o coração sonhava batia muito forte, as pessoas apareceram e cercaram. E nada disseram, apenas agarraram o jovem pelo pescoço e o forçaram a deitar-se no chão. Subitamente ataram as mãos do garoto, deixando o coração  sozinho na terra fria. E tudo aconteceu tão rápido que o coração amedrontado começou a chorar. O choro sufoca.
    Sem ter piedade alguma uma mão fechou-se ao redor do coração e o apertou até que, no meio de um suspiro, ele parou para sempre de bater.Com um corte limpo de um bisturi, desligaram os grossos cabos orgânicos que ligavam o jovem ao coração . E no meio das costelas instalaram uma bombinha seca, do tamanho de uma lichia. Suturaram o peito aberto do rapaz com as mesmas cordas que o prendiam nos pulsos.
    Hoje o que é velho e mecânico, já foi jovem.Hoje , o peito que carrega um caroço mínimo, já foi um tórax vazio. Pois um coração grande demais que só cabe fora do peito.

segunda-feira, 29 de abril de 2013

Ao tempo

Ao tempo peço apenas
que me ensine suspender
cada momento.
Pra quando,
num abraço encontrar vocês,
poder inventar uma fermata
(E transformar uns segundos numa vida inteira).

sábado, 27 de abril de 2013

Ode ao pássaro

I

Da tua mão canhota,
que  de rabiscos caminha,
vejo saltar aos meus olhos,
as mais bonitas ideias

                              II

                              E indago-me,
                              hora à hora,
                              por qual motivo
                              não és tu
                              o desenhista do meu mundo

III

Salta
Lança-te no espaço,
vertigem das ideias
Mergulha  num mar de palavras,
pra espalhar,
ao alçar  voo,
somente poesia

                                  IV

                                 Bem-te-vi
                                 Quem me dera,
                                 um dia,
                                 poder tirar tuas asas
                                 da minha imaginação

V

Teu é o reflexo de tudo que vejo
E cada simples gesto,
passa então,
a ser minhas lembranças de tu:
Pássaro que sempre serás



sexta-feira, 19 de abril de 2013

Correio

Te escreveria cartas mil
Bilhetes
Musiquetas
Versos
Poeminhas
Desenhos bobos
Mas perdi seu endereço,
que pena,
Antes mesmo de tê-lo

domingo, 31 de março de 2013

Ciclo Básico

A tua letra guardo
no bolso esquerdo da minha camisa.
E entre nós uma distância
bem maior que a Cora Coralina.

São tantas ruas que contei...
Que vou somando

Um dia desses
lhe farei uma visita
Pra reviver as
"horas da saída"

São tantas cartas que nem sei...
Só vou ficando aqui.

Heteronomia

E por evitar ser Ricardo Reis
Sou Drummond
E vou sendo gauche,
saudadeando,
por todos os lados.
(procurando desinchar esse coração
 que já não cabe no meu peito)

segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

Changes

E agora,
no limiar da insanidade,
nesse turbilhão de acontecimentos,
tudo que mais queria é lhe fazer um cafuné

domingo, 13 de janeiro de 2013

Teste psicotécnico (Gauche)

Num cartaz amarelo, dentro da minha cabeça, palavras gritam:
" Tu circulo jamais te encaixarás em tua forma"

Gauche

Acho que sim.
Sentirei muita falta...
Mais do que esperava
E  nessas tardes modorrentas,
onde impera o tédio e a lembrança,
nesses almoços de domingo
abarrotados de gente
(tão felizes outrora),
falta um pedaço.
Alguma coisa.
Não que nunca mais serão felizes assim!
Mas, por enquanto,
me sinto um post-it amarelo,
vazio por completo,
sozinho numa placa por aí.

Fim

E o mundo podia ter acabado ali,
naquela brecha do tempo
perdida no centro da cidade.
Podia ter terminado entre os hot dogs
e os enfeites de natal
entre os jogos,
as risadas...
Entre as pausas
e os versos de Drummond
Poderia ter acabado de uma vez
numa brisa suave,
pra nunca mais chegarmos ao Fim.