terça-feira, 28 de maio de 2013

Balada do Memorioso ou Ode à Funes

I
Tudo que toco.
Tudo que sinto.
Já toquei e senti outrora.
Não há uma sequer lembrança que escape
das malhas da minha memória

II
Esquecer é uma arte
na qual não sou iniciado.
E o esforço por mim empregado
pra apagar de minha mente
uma lembrança qualquer
é em vão desperdiçado

III
Aos meus olhos
sobrepõe-se dois mundos mal acabados.
Tudo que por mim é visto
não passa de um futuro passado.
Minha visão nada mais é
que um tipo de disco arranhado.

IV
Vivo num imperfeito pretérito.
Guardando à sete chaves
cada particularidade. 
E por um impulso compulsório,
abstrair não posso.
Pensar não consigo.

V
Sinto-me sufocar.
Sinto memórias na minha traqueia.
Envolvendo meus pulmões.
Comprimindo meus alvéolos.
E o ar que respiro já nasce velho.

VI
Morreu aos dezenove anos,
o garoto Ireneo Funes,
asfixiado por suas lembranças.



Inspirado no conto "Funes, o Memorioso" de Jorge Luis Borges





sábado, 4 de maio de 2013

Um coração fora do peito

    O que hoje é um velho apagado já foi jovem.Um jovem tão incomum quanto podia ser. Onde hoje existe uma penugem alva, antes havia uma basta cabeleira castanha. Os olhos brilhantes de outrora são apenas borrões opacos hoje em dia.E os valores corroídos pelo tempo ainda reluziam num tépido sorriso. As mãos, agora vazias, carregavam um coração. Um coração fora do peito
    Foi numa noite, dessas que faz muito calor, que o coração do jovem saltou do peito para a liberdade das mãos. Contou-lhe que já não suportava a jaula de carne. Sentia-se inchado e grande de mais para caber no meio das costelas. Queria crescer mas, sentir mais. Ouvir e cantar, compor e ver as estrelas. Queria abraçar o mundo.
    Assim caminhava o jovem, com a cabeça meio inclinada e passos arrastados, levando seu coração pra passear. Iam juntos ao campo colher amoras, aos rochedos  ver o mar e aos parques ver as pessoas passarem.
    As pessoas...Nenhuma delas gostava de ver o jovem e seu coração tão grande pro ai. Achavam um desrespeito o jovem cuidar de um coração fora do peito. E ainda o alimentar com tudo que há de belo  nas coisas mais inusitadas desse mundo! E na surdina passaram a bolar uma emboscadas para dar fim a essa heresia
Então, num dia bonito de outono, enquanto o coração sonhava batia muito forte, as pessoas apareceram e cercaram. E nada disseram, apenas agarraram o jovem pelo pescoço e o forçaram a deitar-se no chão. Subitamente ataram as mãos do garoto, deixando o coração  sozinho na terra fria. E tudo aconteceu tão rápido que o coração amedrontado começou a chorar. O choro sufoca.
    Sem ter piedade alguma uma mão fechou-se ao redor do coração e o apertou até que, no meio de um suspiro, ele parou para sempre de bater.Com um corte limpo de um bisturi, desligaram os grossos cabos orgânicos que ligavam o jovem ao coração . E no meio das costelas instalaram uma bombinha seca, do tamanho de uma lichia. Suturaram o peito aberto do rapaz com as mesmas cordas que o prendiam nos pulsos.
    Hoje o que é velho e mecânico, já foi jovem.Hoje , o peito que carrega um caroço mínimo, já foi um tórax vazio. Pois um coração grande demais que só cabe fora do peito.