domingo, 13 de outubro de 2013

Sem Palavras

Para Rebeca, que me dava abraços gostosos

Encontrei Annabel outro dia na biblioteca. E ela não parecia saudável. Quer dizer, ela até que parecia bem, mas tinha alguma coisa naqueles gestos que não sei... Talvez fosse o jeito quase mecânico que ela virava as páginas dos livros, ou mexia no cabelo, ou olhava para as coisas. Não sei, mas aqueles gestos não eram de Annabel, entende? Todos aqueles livros abertos e espalhados pela mesa, fora os livros fechados e empilhados ao lado da mesa, não eram o padrão. Pra começar, Annabel nem gosta de se enfiar em bibliotecas! Ela prefere estudar ao ar livre, nos banquinhos e pracinhas que se perdem por aí... Mas naquele dia ela estava ali, dentro da biblioteca, olhando cada livro, folheando sem vontade, jogando o cabelo para trás de cinco em cinco minutos, dando pancadinhas com a caneta em seu bloco de anotações sem nenhuma anotação.
            Cheguei de mansinho perto dela, tentando ter certeza de que era realmente Annabel e não outra pessoa. Cheguei à mesa, puxei uma das cadeiras que ainda não estava ocupada por livros e sentei-me. Ela demorou um pouco para perceber que eu estava ali. Ergueu os olhos lentamente para mim e sorriu de leve. Sorri em resposta e depois perguntei como ela estava se sentindo, o que estava se passando. Annabel, então, começou a falar com um tom pouco usual, mais débil e triste.
            Contou-me que domingo tinha saído de casa para andar de bicicleta no centro, coisa que sempre gostava de fazer quando tinha algum tempo livre. Gostava de fazer isso porque aos domingos o centro era mais fresco e vazio, assim podia melhor apreciar os prédios, sentir as desigualdades, os sons da cidade.  Sem contar que aos domingos a chance de atropelar alguém era bem menor. Ora, vocês sabem, eu só a conheço por causa de um desses acidentes envolvendo bicicletas e o centro de São Paulo. Em fim, naquele domingo Annabel pedalava pela São Bento quando, às nove horas da manhã em ponto, os sinos do mosteiro começaram a tocar. Como de costume, ela logo fechou os olhos para experimentar a acústica da antiga rua.
            Bem nessa hora, entre a terceira e a quarta badalada, a roda da bicicleta tropeçou num desses bueiros do largo do café e Annabel caiu, espalhando aos quatro cantos da rua, seus pertences, cabelos, cadernos e partituras.  Deve ter sido uma queda bem ruim, afinal não deve ser nada agradável cair bem num meio de um teste desses. Não é todo dia que podemos escutar os sinos do mosteiro, andando de bicicleta em plena São Bento. Por isso entendo Annabel ter ficado ali, caída na rua, até a sexta badalada soar feliz. Começou a se levantar devagar. Como disse, a queda deve ter sido bem ruim. Quando finalmente tinha conseguido colocar-se de pé, isso lá entre a sétima e a oitava badalada, uma dessas chuvas torrenciais que só acontecem em São Paulo, desabou. Num piscar de olhos, Annabel viu todas as suas coisas, seus cadernos, suas partituras, o brilho de seu olhar e suas palavras, escorrerem para dentro do mesmo bueiro que a derrubara algumas badaladas antes. Disse-me que por pouco sua alma também não foi tragada. Havia, por pura sorte, a segurado com a ponta do sapato.
            - Desde então estou assim, sem palavras - Colocou, por fim.
            Claro que eu a abracei e dei aquele apoio mínimo que se espera de um amigo. Disse talvez fosse melhor descansar um pouco, afinal hoje já é sexta e ela continua caçando palavras nessa pilha infinita de livros. Imagine que loucura deve ser procurar suas palavras em outras pessoas! Por isso, depois de passar dias e dias pensando em Annabel e nessa situação complicada, tenho uma proposta pra vocês: acho que devíamos dar palavras para Annabel. Certo, vou explicar. Devíamos deixar palavras por onde Annabel costuma andar. Assim, além de poupar a pobre garota desse árduo trabalho de pesquisa nesses livros tão poeirentos, a deixaríamos muito feliz! Ah, e não precisam ser palavras somente em formas de palavras. Podem ser em formas de abraços, carinhos, breves, parcerias musicais, semibreves, cafunés, mínimas, tangos de Piazzolla, semínimas, picnics,  colcheias, livros, semicolcheias, danças malucas, partidas de stop, fusas, docinhos , tortinhas vegetarianas semifusas... Podia citar uma infinidade de coisas... Ora, vocês sabem como Annabel é adorável.

(Não deixem de escutar Piazzolla !)

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