sexta-feira, 23 de agosto de 2013

Segunda parte

Atenção! A palavra é? E assim começava a aula mais esperada por mim. Sempre essa introdução depois de alguns minutos entre a chamada e a arrumação de alguns papéis. Assim que Orestes entrava na sala e postava-se em sua mesa, me encaminhava até ele. Então o ajudava, algumas vezes, com a chamada, (Número um está presente? Número um? Ausente? Ausente, certo...), conversava sobre qualquer coisa que estivesse acontecendo, pegava um número do Cadáver Semanal. E então vinha a palavra. Nunca sabia ao certo qual era a palavra, nunca a anotava. Na verdade só passei a ter anotações sobre aulas de história esse ano. De qualquer forma as aulas, aqueles cem minutos semanais que escorriam pelos meus dedos, não foram o espaço em que mais aprendi com o Orestes. O Orestes não me ensinou sobre datas, nem guerras ou eventos ditos importantes. Foi além...Me ensinou algo que não tem nome.
Era algo que corria pelo ar da ETECAP, preenchia cada espaço, chacoalhava a copa das árvores, enquanto estávamos em qualquer luta. Era algo que entrava nessa caixa de carne que chamamos de peito e nos dava um certo sentido. A Flavinha sempre dizia isso...
E quando nos preparávamos pra sair à rua eram aquelas palavras que nos davam força. Todos obedientes escutando com atenção o que Orestes  tinha a nos dizer. Todos nós, de preto entre faixas e tintas, escutando atentamente aquelas palavras. E Orestes, um orador admirável que faria muito sucesso em assembleias estudantis, nos dizia num tom apaixonado: Quando olho para vocês, jovens indo a luta, penso que meus amigos, amigos que vi serem torturados e mortos pela ditadura militar, não sofreram em vão!. Escutávamos, sentados no chão do primeiro pátio. Eu citarei agora o poeta Gonzaguinha :Eu vou à luta com essa juventude, que não foge da raia a troco de nada! Então eramos um só. Nossos comitês, panfletos, coletes, apitoscartazes, e aquela chuva que sempre acompanha os etecapianos durante as passeatas.Não eram como as de junho e julho desse ano. Tinham alguma coisa à naquelas palavras.Como aqueles versos de Cecília Meireles, naquela aula sobre inconfidência, que na voz do Orestes ficaram tão sublimes. 
Ai, palavras, ai, palavras
Que estranha potência a vossa!

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