domingo, 27 de fevereiro de 2011

Goles de chá


Ponteiros se arrastam

Por entre os goles de chá

Passos se afastam

Nas salas de outro andar


A chuva, que é forte

Sob a luz do luar

Espera e quase torce

Para um dia eu voltar


Assisto mentiras

Espero o sono chegar

São molduras vazias

Por entre os goles de chá


Poesias perdidas

Por gavetas trancadas

Por tantas idas e vindas

Por pastas fechadas


Todos sonham, eu acordo

Me recuso a dormir

Quanto o sono, ignoro

Para os raios assistir


Assisto memórias

A ressuscitar

Tropeços, Histórias

Por entre os goles de chá

Raios


Raios deixam tudo azulado

Silêncio absoluto

Sem pessoas nem carros


Penumbra colorida

Será ilusão?

Ou apenas uma peça da escuridão


E tudo gira sem sair do lugar

Volto a ser o que nunca fui

Será o acaso ou apenas a luz


Chego ao fim antes de começar

A escrever tudo aquilo que quero

A esperar por tudo que espero

ou não


Eu ouço som na sua mudez indiscreta

Talvez encontre alguma frase secreta

Todos dormem, permaneço acordada

Olhos vermelhos, estou preparada


Chegar ao fim não posso mais

Se eu não começar agora

tanto faz

A cigarra e a Formiga

essa foi a coisa mais próxima à perfeição que já fiz...não devia ter lido tanto Bocage

A cigarra e a Formiga

Conta-se uma história
(corroída pelos tempos)
Que se perde na memória,
Sobre uma noite de fortes ventos,
Onde se encontram dois personagens.
Um repleto de contentamento
E outro consumido pela paisagem.
Havia uma cigarra que amava o pensamento
Do canto e liberdade.
E havia uma formiga que achava um tormento
Sua rotineira realidade


Pela manhã um certo dia
Enquanto trabalhava
A formiga um canto ouvia.
E o canto continuava
Com o passar das horas,
Mas a formiga só pensava
Em largar tudo e ir embora.
Enfim a operária do emprego saiu
E andando pela flora
Numa árvore descobriu
A cigarra em cantoria.
Ao ver a formiga, ela sorriu
E ofereceu uma trova de cortesia,
Que, rancorosa a formiga respondeu:
“ Eu trabalho e você em boemia?
Eu me esforçando e você feito Romeu!!
Me ensinaram que só trabalhando
Que se conquista o que é seu!!”
A formiga, raivosa, continuou olhando
A trova que a cigarra cantou:
“Minha Amiga, não entendo.
Por que tanta raiva me mostrou?
Fiz-lhe algum mal?”
“Esse banjo o dia inteiro tocou
E desafinado cantou como tal
Essa medíocre melodia
Que não pertence a nenhum animal.”
“ O que faço é Poesia
Canto o mundo!
Colho o dia!”
A formiga demorou quase um segundo
Para virar as costas e seguir andando
No caminho escuro
Do seu formigueiro. E sempre escutando
A cigarra à plenos pulmões
Com os ventos cantando.
E foram tantas as canções,
Pela noite e madrugada,
Que a formiga nos lençóis
Amanheceu já zangada.
Ao chegar à empresa
A formiga revoltada
Nada fez a não ser espalhar tristeza.
Era tamanho o mau Humor
Que toda a fineza
Deu lugar ao topor.
Na linha de produção,
No pátio, o sentimento era de dor,
Sem motivo ou explicação.
Mas no fim do expediente
A formiga sem emoção,
Encontrou a cigarra impertinente.
A operária fadigada
Ouviu a cigarra pacientemente:
“Esperava sua chegada,
Pois acho que começamos errado,
Nem fomos apresentadas”
Sentaram-se então, lado a lado
E começaram a conversar
Sob o céu estrelado
Sobre as coisas que a vida tinha a reservar.
A formiga cansada, contava
Que era operária e estava a esperar
O dia que nunca chegava,
O dia de o tempo ser dela,
Do descanso que tanto esperava
De uma vida cheia de cautela.
A cigarra na prosa emendou
E disse que era poeta
Vivia como Deus mandou
Sem querer saber do futuro
E nem daquilo que já passou.
Sua vida não era cercada por muros
Nem cadeados, nem portão.
Não queria saber do escuro
Nem de senhor ou patrão!
A formiga atenciosa escutava
Aquilo com tamanha emoção,
A cigarra poeta falava.
E quando no meio do céu
A lua chegava,
A formiga encerrou o cordel
E seu caminho seguiu.
A madrugada caiu como um véu
Assim como as canções que ela ouviu
Sobre um mundo diferente
Daquilo que sempre existiu
Passaram então, de repente
Dias, semanas à fio,
De encontros contentes
Da nova amizade que surgiu
Em meio a realidades
Separadas por anos mil.
Pois o que conto agora, em verdade
Mudará a amiga formiga
Que chegou com uma novidade
Que deixou-a aflita.
Até que a cigarra explicou
Que a crise que o formigueiro enfrentava
Acontecia por que alguém a causou.
No mundo onde se situava
No formigueiro em ela que vive,
A operária não imaginava
Como se convive
Com a enorme pobreza
Que pelas ruas existe.
“Enquanto na Realeza,
A folgada rainha ostenta
O que conseguiu ( com grande moleza)
Nas costas de quem sempre a sustenta:
Por ventura, vocês soldados e operárias
Classe que todo serviço aguenta
para conseguir de forma precária
Nada mais que sua subsistência!!!”
E a formiga percebeu
Que tudo que produzia
Nunca lhe pertenceu
(Nem mesmo por um dia).
Aquilo tudo era seu!!
A cigarra falou em Mais-valia,
A formiga logo entendeu.
O tempo e a liberdade
A rainha bem escondeu
Como a pura verdade.
A formiga agora ciente
Logo esclareceu
As operárias carentes
De qualquer noção.
A nação do povo unido
Pra levantar uma insurreição!
Então a formiga branindo
Suas ferramentas
As ruas foram subindo
(ao som da cigarra contenta)
Em direção ao castelo
Da rainha tormenta,
Que com um Martelo
De fome o povo matava
Enquanto fazia elos
Com aqueles que pra ela importava.
Ao ver o povo na Porta
( que com força a empurrava)
A rainha fingiu-se de morta
E saiu de anti-mão
Levando consigo a horda
Que o povo chamou de ladrão.
Foi assim que a cigarra formosa
Cantando no limite do pulmão
Uma canção honrosa
Sobre a revolução!!
Sob os fortes ventos
Daquela noite de inverno,
Só havia um pensamento
que não era nada interno:
Liberdade amor!
Sem gravatas, nem ternos!
Carpe Diem, Fervor!
Tudo em nome da igualdade
Sem sentir mais temor
Em contato com a verdade.

Nossa história aqui não termina
Apenas muda de cidade,
Cuja cigarra seguia
Levando em sua bagagem
Sua ideologia.