domingo, 26 de janeiro de 2014

Sobre aquele tempo

Estamos crescendo , pensa a menina ao olhá-los de longe. Estão quase todos lá, conversando na cozinha enquanto preparam qualquer coisa. Nem mais parecem com aqueles moleques da sala 411, aqueles que só sabiam aprontar e viviam gritando. Talvez daqueles moleques só sobraram os nomes, as memórias e alguns traços. Talvez daqueles moleques só sobraram as fotos, os olhos tão brilhantes e as mesmas criancices inocentes. Quem diria que estariam eles ali, na cozinha da casa fermata, cortando legumes, falando sobre o tempo, sobre os planos.
Foram crescendo tão rápido.  Os comentários, as brincadeiras, as atitudes foram tornando-se mais sensatas. Já não mais eram só escárnio e mal dizer. Eram algo mais doce, eram algo sem nome. Foram mudando tão rápido. Não mais os moleques, os azulejos quebrados, e sim a calma de uma tarde estendidos ao sol de inverno. E sim uma tarde, prolongada pelos atributos da casa, uma tarde cortando legumes e falando sobre o tempo, sobre a vida.
Estamos mesmo crescendo... Conheciam uns aos outros, os gostos, as vontades. Conheciam os anseios e ajudavam-se. Foi bonito vê-los nesse processo vertiginoso de conhecimento. Foi bonito ver seus corações crescendo, crescendo, até não mais caber no peito. Eram dados a surpresas, a música boa, a descobertas literárias. Citavam poemas, faziam desenhos para enfeitar a sala. Preocupavam-se com detalhes que aos olhos de outrem eram bobagens. São cronópios, viciados no tempo, viviam de poesia e de salada de frutas.  Tão igual e ao mesmo tempo completamente diferente dos moleques, quatorze para quinze anos de jeans e qualquer outra bobagem. Foram crescendo tão rápido, abandonando alguns traços, mais preservando o essencial. Crescendo mais nunca adultecendo por completo. Isso não sei porque. Talvez seja porque todas essas lembranças, todas aquelas tardes e histórias, os impediam de simplesmente  adultecer. E mesmo agora,  tenho que escolher as matérias pro próximo semestre, talvez um intercâmbio pra Lisboa ano que vem, a segunda fase parece ser bem mais tranquila, vou me matricular naquela federal amanhã mesmo, eram ainda meio crianças. Aquelas mesmas que matavam aulas para plantarem bananeira, darem cambalhotas mil, cozinharem qualquer coisa no laboratório de alimentos.A menina continua a olhá-los, admira cada um infinitamente. Sorri ao pensar que mesmo estando assim, tão crescidos, indo cada um pra um rumo diferente, ainda os teria dentro de si.