terça-feira, 28 de maio de 2013

Balada do Memorioso ou Ode à Funes

I
Tudo que toco.
Tudo que sinto.
Já toquei e senti outrora.
Não há uma sequer lembrança que escape
das malhas da minha memória

II
Esquecer é uma arte
na qual não sou iniciado.
E o esforço por mim empregado
pra apagar de minha mente
uma lembrança qualquer
é em vão desperdiçado

III
Aos meus olhos
sobrepõe-se dois mundos mal acabados.
Tudo que por mim é visto
não passa de um futuro passado.
Minha visão nada mais é
que um tipo de disco arranhado.

IV
Vivo num imperfeito pretérito.
Guardando à sete chaves
cada particularidade. 
E por um impulso compulsório,
abstrair não posso.
Pensar não consigo.

V
Sinto-me sufocar.
Sinto memórias na minha traqueia.
Envolvendo meus pulmões.
Comprimindo meus alvéolos.
E o ar que respiro já nasce velho.

VI
Morreu aos dezenove anos,
o garoto Ireneo Funes,
asfixiado por suas lembranças.



Inspirado no conto "Funes, o Memorioso" de Jorge Luis Borges





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