segunda-feira, 7 de outubro de 2013

Mais sobre Carlos

- E se não eu fosse apenas uma pessoa? Fosse uma coleção?
Fez a pergunta bem quanto eu erguia meu garfo, vitoriosa, após ter capturado o último tomate cereja do prato, depois de muito esforço, admito. Ora, vocês sabem como se comportam os tomates cerejas quando tentamos espetá-los. Então Carlos me fez a pergunta, uma daquelas perguntas que só ele sabe como fazer. Uma daquelas perguntas que entram em cada poro do nosso corpo, que fazem o coração acelerar e a mente dar cambalhotas. Daquelas perguntas que nos fazem ficar com o garfo suspenso a meio caminho da  boca meio aberta. Fez a pergunta e ficou esperando a resposta, com aqueles olhos brilhantes e escuros mirando meu rosto abobalhado. A única coisa que pensei, logo depois da pergunta foi, se  conseguiria dar uma resposta... Minhas palavras sempre soam ásperas demais quando falo de Carlos, quando tento achar respostas para Carlos.
Não sei direito desde quando essa cena se repete: Carlos me faz uma pergunta ou me fala alguma coisa, ou me mostra um poema, ou uma música, ou um pedaço da sua alma e eu fico assim, abobalhada, com o garfo a meio caminho da boca, com uma imensa vontade de abraçar Carlos, beijar-lhe a testa. Pra ser sincera não sei direito desde quando o conheço, pois cronologia é algo que Carlos ignora. Tenho a impressão de que ele sempre esteve aqui junto de mim. Como e onde, isso é que não sei...
A primeira vez que o vi,  ele estava sentado em sua mesa, extremamente ordinário. Camisa engomada, relógio bem atado ao pulso. Naquele tempo não nos falávamos, mesmo nos vendo todo dia por um ao ou mais.
Mas um dia, isso numa quinta-feira, doze de maio, começamos a nos falar. Desse doze de maio em diante eu simplesmente passei a conhecer Carlos, mas não por ele ter me contado coisas entre um gole e outro de chá de lichia. Conheci Carlos porque  ao acordar naquela manhã, ele, de certa forma, estava comigo. E ficou comigo o resto do dia, como aquele gosto de dentifrício que não sai por completo da boca após escovarmos os dentes.
Mais tarde naquele mesmo doze de maio, contou-me que havia ocorrido quase à mesma quando acordou. Então eu sabia muito sobre ele, da mesma forma que ele passou saber sobre mim. Ele me conhece, eu o conheço e ponto. Conheço suas perguntas, seu jeito de andar e falar, suas pequenas manias, seu jeito de escrever, de pegar meu rosto, meus poemas, meus desenhos. Conheço aquele olhar que Carlos faz quando sente que seu coração está inchado. Conheço aquele olhar que Carlos faz quando sabe que estou pensando nisso tudo ao invés de dar-lhe uma resposta. Aquele olhar que ele faz, com esses olhos brilhantes e escuros, duas jabuticabas, que me olham por cima da mesa esperando uma resposta. 
- E então? O que você acha?
- Acho que isso é incrível!
- Mesmo?
-Claro que sim, Carlos!!
-Ei, onde você está indo?
-Vou terminar aquele desenho.
- Ainda aquele desenho? Podia jurar que ele estava terminado...
-Eu terminei o desenho, mas esqueci a nota de rodapé... 

PS: Não deixem de ler .Penteando Frases

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