Para Rebeca, que me dava abraços gostosos
Encontrei Annabel outro dia na
biblioteca. E ela não parecia saudável. Quer dizer, ela até que parecia bem,
mas tinha alguma coisa naqueles gestos que não sei... Talvez fosse o jeito
quase mecânico que ela virava as páginas dos livros, ou mexia no cabelo, ou
olhava para as coisas. Não sei, mas aqueles gestos não eram de Annabel,
entende? Todos aqueles livros abertos e espalhados pela mesa, fora os livros
fechados e empilhados ao lado da mesa, não eram o padrão. Pra começar, Annabel
nem gosta de se enfiar em bibliotecas! Ela prefere estudar ao ar livre, nos
banquinhos e pracinhas que se perdem por aí... Mas naquele dia ela estava ali,
dentro da biblioteca, olhando cada livro, folheando sem vontade, jogando o
cabelo para trás de cinco em cinco minutos, dando pancadinhas com a caneta em
seu bloco de anotações sem nenhuma anotação.
Cheguei de
mansinho perto dela, tentando ter certeza de que era realmente Annabel e não
outra pessoa. Cheguei à mesa, puxei uma das cadeiras que ainda não estava
ocupada por livros e sentei-me. Ela demorou um pouco para perceber que eu
estava ali. Ergueu os olhos lentamente para mim e sorriu de leve. Sorri em
resposta e depois perguntei como ela estava se sentindo, o que estava se
passando. Annabel, então, começou a falar com um tom pouco usual, mais débil e
triste.
Contou-me
que domingo tinha saído de casa para andar de bicicleta no centro, coisa que
sempre gostava de fazer quando tinha algum tempo livre. Gostava de fazer isso
porque aos domingos o centro era mais fresco e vazio, assim podia melhor
apreciar os prédios, sentir as desigualdades, os sons da cidade. Sem contar que aos domingos a chance de
atropelar alguém era bem menor. Ora, vocês sabem, eu só a conheço por causa de
um desses acidentes envolvendo bicicletas e o centro de São Paulo. Em fim,
naquele domingo Annabel pedalava pela São Bento quando, às nove horas da manhã
em ponto, os sinos do mosteiro começaram a tocar. Como de costume, ela logo
fechou os olhos para experimentar a acústica da antiga rua.
Bem nessa
hora, entre a terceira e a quarta badalada, a roda da bicicleta tropeçou num
desses bueiros do largo do café e Annabel caiu, espalhando aos quatro cantos da
rua, seus pertences, cabelos, cadernos e partituras. Deve ter sido uma queda bem ruim, afinal não
deve ser nada agradável cair bem num meio de um teste desses. Não é todo dia
que podemos escutar os sinos do mosteiro, andando de bicicleta em plena São
Bento. Por isso entendo Annabel ter ficado ali, caída na rua, até a sexta
badalada soar feliz. Começou a se levantar devagar. Como disse, a queda deve
ter sido bem ruim. Quando finalmente tinha conseguido colocar-se de pé, isso lá
entre a sétima e a oitava badalada, uma dessas chuvas torrenciais que só
acontecem em São Paulo, desabou. Num piscar de olhos, Annabel viu todas as suas
coisas, seus cadernos, suas partituras, o brilho de seu olhar e suas palavras,
escorrerem para dentro do mesmo bueiro que a derrubara algumas badaladas antes.
Disse-me que por pouco sua alma também não foi tragada. Havia, por pura sorte,
a segurado com a ponta do sapato.
- Desde
então estou assim, sem palavras - Colocou, por fim.
Claro que
eu a abracei e dei aquele apoio mínimo que se espera de um amigo. Disse talvez
fosse melhor descansar um pouco, afinal hoje já é sexta e ela continua caçando
palavras nessa pilha infinita de livros. Imagine que loucura deve ser procurar
suas palavras em outras pessoas! Por isso, depois de passar dias e dias
pensando em Annabel e nessa situação complicada, tenho uma proposta pra vocês:
acho que devíamos dar palavras para Annabel. Certo, vou explicar. Devíamos
deixar palavras por onde Annabel costuma andar. Assim, além de poupar a pobre
garota desse árduo trabalho de pesquisa nesses livros tão poeirentos, a
deixaríamos muito feliz! Ah, e não precisam ser palavras somente em formas de
palavras. Podem ser em formas de abraços, carinhos, breves, parcerias musicais,
semibreves, cafunés, mínimas, tangos de Piazzolla, semínimas, picnics, colcheias, livros, semicolcheias, danças
malucas, partidas de stop, fusas, docinhos , tortinhas vegetarianas semifusas...
Podia citar uma infinidade de coisas... Ora, vocês sabem como Annabel é
adorável.
(Não deixem de escutar
Piazzolla !)