quinta-feira, 17 de outubro de 2013

Nota de rodapé

Pra ser lido ao som de Duke Ellington & His Orchestra

- Você vai escrever alguma coisa, Marina?
-Não sei...Acha que eu deveria?
-Isso depende.
-Do que exatamente?
-Das suas expectativas...
-Acho que se eu escrevesse algo não seria nada sobre expectativas...
-Seria sobre o que então?
-Uma explicação ou sei lá.
-Explicação?
-É. Sinto uma necessidade de explicar o desenho, Carola...Não é todo dia que entrego desenhos pra pessoas que não conheço. Nem sei o nome dele...
-Acredite, sei muito bem como se sente. Então, explique-se.
-Disso tenho certeza, niña. Mas como explicar?
-Ah, isso já é mais com você do que comigo.
-Tem razão.
-...
-É que a música dele me fez tão bem! Eu não sei, mas quando senti a música, saí do metrô correndo! Era alguma coisa que fazia o ar vibrar sabe?
- Mexeu mesmo com você, não?
-Mexeu tanto comigo que, quando dei por mim, o estava desenhando, quase sem querer...
-Então você continuou desenhando
-Sim, continuei. É como se fosse um agradecimento, sabe?
-Acho que sei...
-As pessoas nem paravam pra escutar, Carola... Passavam correndo, jogavam moedas no case do sax e só...
-Então teve a ideia do desenho.
-É, foi mais ou menos assim... Moedas são ridículas perto da música dele, sabe?
-Pelo jeito que você fala... Sei lá, eu gostaria de ganhar o desenho.
-Sério? Carola, você acha que isso é loucura?
-Marina, claro que não é loucura!
-...
-Talvez só um pouquinho de loucura.
-Só um pouquinho...
-...
-Acho que eu escrevi alguma coisa.
-Sim, escreveu...
-Vou deixar por isso mesmo, tudo bem?

-Por mim...

domingo, 13 de outubro de 2013

Sem Palavras

Para Rebeca, que me dava abraços gostosos

Encontrei Annabel outro dia na biblioteca. E ela não parecia saudável. Quer dizer, ela até que parecia bem, mas tinha alguma coisa naqueles gestos que não sei... Talvez fosse o jeito quase mecânico que ela virava as páginas dos livros, ou mexia no cabelo, ou olhava para as coisas. Não sei, mas aqueles gestos não eram de Annabel, entende? Todos aqueles livros abertos e espalhados pela mesa, fora os livros fechados e empilhados ao lado da mesa, não eram o padrão. Pra começar, Annabel nem gosta de se enfiar em bibliotecas! Ela prefere estudar ao ar livre, nos banquinhos e pracinhas que se perdem por aí... Mas naquele dia ela estava ali, dentro da biblioteca, olhando cada livro, folheando sem vontade, jogando o cabelo para trás de cinco em cinco minutos, dando pancadinhas com a caneta em seu bloco de anotações sem nenhuma anotação.
            Cheguei de mansinho perto dela, tentando ter certeza de que era realmente Annabel e não outra pessoa. Cheguei à mesa, puxei uma das cadeiras que ainda não estava ocupada por livros e sentei-me. Ela demorou um pouco para perceber que eu estava ali. Ergueu os olhos lentamente para mim e sorriu de leve. Sorri em resposta e depois perguntei como ela estava se sentindo, o que estava se passando. Annabel, então, começou a falar com um tom pouco usual, mais débil e triste.
            Contou-me que domingo tinha saído de casa para andar de bicicleta no centro, coisa que sempre gostava de fazer quando tinha algum tempo livre. Gostava de fazer isso porque aos domingos o centro era mais fresco e vazio, assim podia melhor apreciar os prédios, sentir as desigualdades, os sons da cidade.  Sem contar que aos domingos a chance de atropelar alguém era bem menor. Ora, vocês sabem, eu só a conheço por causa de um desses acidentes envolvendo bicicletas e o centro de São Paulo. Em fim, naquele domingo Annabel pedalava pela São Bento quando, às nove horas da manhã em ponto, os sinos do mosteiro começaram a tocar. Como de costume, ela logo fechou os olhos para experimentar a acústica da antiga rua.
            Bem nessa hora, entre a terceira e a quarta badalada, a roda da bicicleta tropeçou num desses bueiros do largo do café e Annabel caiu, espalhando aos quatro cantos da rua, seus pertences, cabelos, cadernos e partituras.  Deve ter sido uma queda bem ruim, afinal não deve ser nada agradável cair bem num meio de um teste desses. Não é todo dia que podemos escutar os sinos do mosteiro, andando de bicicleta em plena São Bento. Por isso entendo Annabel ter ficado ali, caída na rua, até a sexta badalada soar feliz. Começou a se levantar devagar. Como disse, a queda deve ter sido bem ruim. Quando finalmente tinha conseguido colocar-se de pé, isso lá entre a sétima e a oitava badalada, uma dessas chuvas torrenciais que só acontecem em São Paulo, desabou. Num piscar de olhos, Annabel viu todas as suas coisas, seus cadernos, suas partituras, o brilho de seu olhar e suas palavras, escorrerem para dentro do mesmo bueiro que a derrubara algumas badaladas antes. Disse-me que por pouco sua alma também não foi tragada. Havia, por pura sorte, a segurado com a ponta do sapato.
            - Desde então estou assim, sem palavras - Colocou, por fim.
            Claro que eu a abracei e dei aquele apoio mínimo que se espera de um amigo. Disse talvez fosse melhor descansar um pouco, afinal hoje já é sexta e ela continua caçando palavras nessa pilha infinita de livros. Imagine que loucura deve ser procurar suas palavras em outras pessoas! Por isso, depois de passar dias e dias pensando em Annabel e nessa situação complicada, tenho uma proposta pra vocês: acho que devíamos dar palavras para Annabel. Certo, vou explicar. Devíamos deixar palavras por onde Annabel costuma andar. Assim, além de poupar a pobre garota desse árduo trabalho de pesquisa nesses livros tão poeirentos, a deixaríamos muito feliz! Ah, e não precisam ser palavras somente em formas de palavras. Podem ser em formas de abraços, carinhos, breves, parcerias musicais, semibreves, cafunés, mínimas, tangos de Piazzolla, semínimas, picnics,  colcheias, livros, semicolcheias, danças malucas, partidas de stop, fusas, docinhos , tortinhas vegetarianas semifusas... Podia citar uma infinidade de coisas... Ora, vocês sabem como Annabel é adorável.

(Não deixem de escutar Piazzolla !)

segunda-feira, 7 de outubro de 2013

Mais sobre Carlos

- E se não eu fosse apenas uma pessoa? Fosse uma coleção?
Fez a pergunta bem quanto eu erguia meu garfo, vitoriosa, após ter capturado o último tomate cereja do prato, depois de muito esforço, admito. Ora, vocês sabem como se comportam os tomates cerejas quando tentamos espetá-los. Então Carlos me fez a pergunta, uma daquelas perguntas que só ele sabe como fazer. Uma daquelas perguntas que entram em cada poro do nosso corpo, que fazem o coração acelerar e a mente dar cambalhotas. Daquelas perguntas que nos fazem ficar com o garfo suspenso a meio caminho da  boca meio aberta. Fez a pergunta e ficou esperando a resposta, com aqueles olhos brilhantes e escuros mirando meu rosto abobalhado. A única coisa que pensei, logo depois da pergunta foi, se  conseguiria dar uma resposta... Minhas palavras sempre soam ásperas demais quando falo de Carlos, quando tento achar respostas para Carlos.
Não sei direito desde quando essa cena se repete: Carlos me faz uma pergunta ou me fala alguma coisa, ou me mostra um poema, ou uma música, ou um pedaço da sua alma e eu fico assim, abobalhada, com o garfo a meio caminho da boca, com uma imensa vontade de abraçar Carlos, beijar-lhe a testa. Pra ser sincera não sei direito desde quando o conheço, pois cronologia é algo que Carlos ignora. Tenho a impressão de que ele sempre esteve aqui junto de mim. Como e onde, isso é que não sei...
A primeira vez que o vi,  ele estava sentado em sua mesa, extremamente ordinário. Camisa engomada, relógio bem atado ao pulso. Naquele tempo não nos falávamos, mesmo nos vendo todo dia por um ao ou mais.
Mas um dia, isso numa quinta-feira, doze de maio, começamos a nos falar. Desse doze de maio em diante eu simplesmente passei a conhecer Carlos, mas não por ele ter me contado coisas entre um gole e outro de chá de lichia. Conheci Carlos porque  ao acordar naquela manhã, ele, de certa forma, estava comigo. E ficou comigo o resto do dia, como aquele gosto de dentifrício que não sai por completo da boca após escovarmos os dentes.
Mais tarde naquele mesmo doze de maio, contou-me que havia ocorrido quase à mesma quando acordou. Então eu sabia muito sobre ele, da mesma forma que ele passou saber sobre mim. Ele me conhece, eu o conheço e ponto. Conheço suas perguntas, seu jeito de andar e falar, suas pequenas manias, seu jeito de escrever, de pegar meu rosto, meus poemas, meus desenhos. Conheço aquele olhar que Carlos faz quando sente que seu coração está inchado. Conheço aquele olhar que Carlos faz quando sabe que estou pensando nisso tudo ao invés de dar-lhe uma resposta. Aquele olhar que ele faz, com esses olhos brilhantes e escuros, duas jabuticabas, que me olham por cima da mesa esperando uma resposta. 
- E então? O que você acha?
- Acho que isso é incrível!
- Mesmo?
-Claro que sim, Carlos!!
-Ei, onde você está indo?
-Vou terminar aquele desenho.
- Ainda aquele desenho? Podia jurar que ele estava terminado...
-Eu terminei o desenho, mas esqueci a nota de rodapé... 

PS: Não deixem de ler .Penteando Frases