sábado, 31 de maio de 2014
131-58-131
Decerto, a menina jamais pensou que tudo pudesse caber ali, naquele envelope reutilizado. Ao todo , duas rosas (uma amarela e outra vermelha), uma embalagem de presente, dois bilhetes de teatro e um de cinema, uma pequena carta enrolada em feitio de pergaminho. "Caberia muito mais lembranças, até". Parou por um minuto, repensando a decisão. "Existem rios metafísicos, Horacio, e ele os ignora por completo". Fechou a tampa da caixa de lembranças e abriu o capítulo 93 para uma última leitura noturna.
terça-feira, 20 de maio de 2014
Ao Cronópio: Jogo do Mundo (Parte I)
Começo por descrever aqui a primeira memória referente a Julio. Desculpem por essa memória ter pouco ou quase nada a ver com a descoberta dele em si e tudo mais. Digamos que é apenas um marco, um vício nas origens, Bloch que me perdoe. Começo então por fevereiro, talvez março, do ano de Dois Mil e Onze. Lembro-me, claramente, de Carolis o lendo. É certo que duvidei que ela o lia mesmo, isso porque o marca página se comportava de maneira pouco ortodoxa, digamos. Eis então minha primeira lembrança de : um livro vermelho que Carolis fingia ler, sabe se lá por qual motivo.
Mas isso foi em fevereiro, talvez março, daquele saudoso Dois Mil e Onze. Isso foi antes da Greve, da Agenda 21, do Bem-te-vi, das eleições pro grêmio...Foi num longínquo fevereiro, talvez março.
O descobri de fato em novembro, numa tarde de novembro. Seria apenas uma dessas quintas de novembro em que, por várias razões, eu faltava nas aulas do técnico e ia pra casa. Uma dessas tardes que o sol entrava pela janela do apartamento e iluminava cada canto. Seria apenas mais uma tarde se não fosse por aquela vinheta da MTv. Não sei exatamente o que chamou atenção, se foi o desenho ou a música ou o texto em portunhol, mas alguma coisa naquele vídeo me ganhou. Um nome aparecia no final, letras vermelhas numa tela preta: Rayuela. Achei o nome engraçado. Pesquisei na internet o significado, descobri que era título de um livro. Aí entra em cena aquele tipo de coisa que uns chamam destino, porque quando li o nome do livro em português lembrei-me, sem esforço algum, daquele exemplar de capa vermelha que Carolis fingia ler, sabe se lá por qual motivo.
Perguntei a ela, naquela mesma tarde, se poderia pegar o livro emprestado. A resposta, para minha total surpresa, foi negativa e até meio grossa. Disse-me que não poderia me emprestar o livro pelo simples fato de precisar dele por perto. Não discuti muito, afinal não estava tão afim de ler um livro com um título que eu julgava bobo de um autor que eu nem conhecia. Na manhã seguinte, no entanto, encontrei-o, o livro de capa vermelha, em cima da minha mesa. Carolis estava ao seu lado, dando-me um daqueles sorrisos tão belos. "Antes de começar a ler preciso te dar umas instruções" , disse-me pausadamente, "Esse livro não é um só, podem ser vários ao mesmo tempo. Mas, grosso modo, são dois". Contou-me então que eu devia jogar e não apenas ler. Comecei naquela aula de Física mesmo - desculpe pela franqueza, Edivalter querido - a jogá-lo. Saltar do setenta e três pro um, depois pro dois. Em cada frase eu descobria um novo mundo, uma epifania de cada vez. Assim conheci Julio e seu livro.
Durante aqueles quinze dias de primeira leitura tudo passou a ser Cortázar. A música e os cantores favoritos de Roland, os livros e a poesia, Morelli e tudo mais. Ler o capítulo sete, o oitenta e um, o noventa e três mais tarde, descobrir algo muito maior que um livro. Um jogo onde o leitor tem opções infinitas porque ao escrever o autor teve opções infinitas As anotações no meu caderninho da época deixam claro a demarcação de fronteira. Conforme avançava no Jogo, conhecia-me com Horacio, como La Maga, como alguém que nunca pensei em ser. Nunca tinha pensado ser possível escrever de maneira tão lúdica, tão inovadora mesmo. Basta dar uma lida no capítulo trinta e quatro ou então no cinquenta e seis...
Apenas em janeiro consegui chegar ao beco sem saída, o infinito ciclo, cento e trinta e um - cinquenta e oito - cento e trinta e um. E isso, de maneira alguma, se resume no fim de Rayuela. Ele não existe, uma vez que, a cada leitura, moldo o livro como bem entender. Juntando passagens, lendo capítulos separadamente... Não sei explicar direito o que sinto por esse livro.Talvez porque certas coisas não se dizem, nem se explica. Digamos que sinto-me como Marco Polo ao tentar falar de Veneza para o Grande Khan: as imagens da memória, uma vez fixadas em palavras, apagam-se*.
Assim fui descobrir Julio e sua maneira de pensar, de escrever. Descobri o Jazz. Escrever como um jazzeiro, buscando a realização de sua arte não no produto final, mas sim na execução. Esse era o grande Jogo de Julio. Buscando escrever como Bird tocava suas semibreves, afinal literatura é puro take, não é mesmo?
* Calvino, 1974:86 apud Caldeira, 2000 :19
Perguntei a ela, naquela mesma tarde, se poderia pegar o livro emprestado. A resposta, para minha total surpresa, foi negativa e até meio grossa. Disse-me que não poderia me emprestar o livro pelo simples fato de precisar dele por perto. Não discuti muito, afinal não estava tão afim de ler um livro com um título que eu julgava bobo de um autor que eu nem conhecia. Na manhã seguinte, no entanto, encontrei-o, o livro de capa vermelha, em cima da minha mesa. Carolis estava ao seu lado, dando-me um daqueles sorrisos tão belos. "Antes de começar a ler preciso te dar umas instruções" , disse-me pausadamente, "Esse livro não é um só, podem ser vários ao mesmo tempo. Mas, grosso modo, são dois". Contou-me então que eu devia jogar e não apenas ler. Comecei naquela aula de Física mesmo - desculpe pela franqueza, Edivalter querido - a jogá-lo. Saltar do setenta e três pro um, depois pro dois. Em cada frase eu descobria um novo mundo, uma epifania de cada vez. Assim conheci Julio e seu livro.
Durante aqueles quinze dias de primeira leitura tudo passou a ser Cortázar. A música e os cantores favoritos de Roland, os livros e a poesia, Morelli e tudo mais. Ler o capítulo sete, o oitenta e um, o noventa e três mais tarde, descobrir algo muito maior que um livro. Um jogo onde o leitor tem opções infinitas porque ao escrever o autor teve opções infinitas As anotações no meu caderninho da época deixam claro a demarcação de fronteira. Conforme avançava no Jogo, conhecia-me com Horacio, como La Maga, como alguém que nunca pensei em ser. Nunca tinha pensado ser possível escrever de maneira tão lúdica, tão inovadora mesmo. Basta dar uma lida no capítulo trinta e quatro ou então no cinquenta e seis...
Apenas em janeiro consegui chegar ao beco sem saída, o infinito ciclo, cento e trinta e um - cinquenta e oito - cento e trinta e um. E isso, de maneira alguma, se resume no fim de Rayuela. Ele não existe, uma vez que, a cada leitura, moldo o livro como bem entender. Juntando passagens, lendo capítulos separadamente... Não sei explicar direito o que sinto por esse livro.Talvez porque certas coisas não se dizem, nem se explica. Digamos que sinto-me como Marco Polo ao tentar falar de Veneza para o Grande Khan: as imagens da memória, uma vez fixadas em palavras, apagam-se*.
Assim fui descobrir Julio e sua maneira de pensar, de escrever. Descobri o Jazz. Escrever como um jazzeiro, buscando a realização de sua arte não no produto final, mas sim na execução. Esse era o grande Jogo de Julio. Buscando escrever como Bird tocava suas semibreves, afinal literatura é puro take, não é mesmo?
* Calvino, 1974:86 apud Caldeira, 2000 :19
Assinar:
Postagens (Atom)