sábado, 28 de setembro de 2013

Poeminha perdido

Era uma vez um poema
Poema escrito numa folha solta
Folha solta que virou marca página
Marca página que ficou num livro
Livro que foi devolvido à biblioteca

Tempo, pra que?

Fernanda não usa relógios
Nem os de ponteiro
Porque lhe atormenta o barulho
Que o tempo faz ao passar
Nem os digitais
Por ter sempre a impressão
Dos números estarem sempre distraídos
Deixando os minutos muito soltos
Deixando o tempo descontínuo

Fernanda não confia nos relógios
Procura buscar as horas por si mesma
As busca no céu, na sombras, nos bancos das pracinhas
Nos livros, no ar, na copa das árvores
E não pense que por isso
Ela sempre se atrasa, perde a hora
Em matéria de tempo, amigos,
Fernanda pouco se equivoca

sábado, 21 de setembro de 2013

Naquele pedaço de parque

Ali,
Naquele pedaço de parque,
Estendidos na grama
Cabelos
Mãos
Almas
Memórias
Confundem-se

Ali,
Naquele pedaço de parque
O mundo volta a plantar bananeira
E não existem problemas
Atrasos
Provas
Toda sorte de cansaços


Ali,
Naquele pedaço de parque,
Temos sempre dezesseis anos

Mais algumas quadras

Naquela época
Eram os passarinhos,
Não os jornalistas,
Que anunciavam a primavera

E éramos tão leves!
Escrever era tão fácil!
Como se carregássemos a poesia
Na sola dos pés descalços

Escrevíamos amor
Com arpejos em sol aberto
Pinceladas em um canson
Rabiscos de crayon

Hoje escrevemos saudade...

domingo, 15 de setembro de 2013

Saudade

Vou te escrever baixinho
Porque periga o azar ver.
Qualquer dia, mi cariño
No portão da sua casa
Chegarei bem de mansinho.
Sem aviso e sem alarde
Sem dar tempo ao desencontro
De surpresa, por acaso
Chegarei devagarinho
Roubar-te-ei um abraço

Para Carola, mi cariño

sábado, 7 de setembro de 2013

Carta a Julia

Dedico esse conto à Carolis, por ter me ensinado coisas tão bonitas

***

Querida Julia,
         te escrevo agora como última tentativa de mitigar esse desassossego que  se apossou de mim à algumas semanas.Ah, mana, tem acontecido cada coisa por aqui! A primeira vez que ocorreu foi numa dessas tardes quentes de mais, em que o tédio fica preso entre os ponteiros do relógio e o tempo custa a passar. Quando entrei no meu quarto reparei que O Jogo da Amarelinha não estava em seu lugar de costume, entre 62 - Modelo para amar e Os prêmios , mas sim no meio dos meus dicionários, duas estantes  acima.  Achei que Nico tinha feito uma de suas brincadeiras. Ora, você o conhece, sempre interferindo na ordem natural do meu caos. Recoloquei o livro de volta ao lugar, um pouco contrafeita, é verdade,  e comecei a pensar no que iria fazer para vingar-me. Como te disse, o tempo custava à passar, então não sei precisar direito quanto demorou para que eu entrasse novamente no meu quarto e encontrasse o livro fora do lugar de novo. Sei que a primeira coisa que me passou pela cabeça ao vê-lo lá, entre meus dicionários, pela segunda vez, foi de que eu não havia colocado-o de novo em seu lugar, religiosamente entre 62 - Modelo para amar e Os prêmios.  A segunda foi uma sensação de que finalmente havia enlouquecido.  Juro que pensei estar louca. Julia, estava só eu no apartamento! Nico havia saído pela manhã e ainda não tinha retornado, não poderia ter sido ele. Não a segunda vez pelo menos...Recoloquei, de novo, o livro no lugar. E não é nenhuma tautologia, mana. O recoloquei duas vezes no lugar!
         Então se passaram alguns dias e eu não o movi de seu lugar. Prefiro as edições em espanhol para minhas anotações, você bem sabe. Passaram-se alguns dias, igualmente quentes e tediosos, e eu resolvi esquecer o incidente. Nem cheguei a comentar com Nico. Alguns dias até que tornei a olhar para meus livros novamente. Ele não estava lá, Julia. Não estava nem entre 62 - Modelo para amar e Os prêmios, nem entre meus dicionários.Não estava no meu quarto, nem no meu apartamento. Julia, te juro que não estava! Revirei todos os cômodos, gavetas, armários. Revirei cada canto e encontrei de tudo um pouco, menos O Jogo da Amarelinha! Nico até se assustou quando chegou e deparou-se com o estado da casa. Com meu estado...Expliquei pra ele toda história e não sei se ele acreditou muito, sabe. Disse-me que talvez eu precisasse de ar fresco, então fomos dar uma volta. E quando voltávamos para casa encontrei o livro num banco da Marechal Deodoro. Mana, era o meu livro! Meu livro, com minhas marcas, com aquele  bilhete no Capítulo 81! Nico ficou quase tão atordoado quanto eu. Pobrezinho!
         Conversamos, mais tarde , e chegamos à conclusão de que talvez o livro esteja sufocado...Sabe, talvez ele só precise de um pouquinho de ar fresco. Afinal não deve ser nada confortável viver entre dois outros livros.Deve ser apertado e sem nenhum tipo de privacidade... E desde então comecei a levar O Jogo da Amarelinha comigo pra todo lado. Aulas, parques, museus, passeios de metrô. Mas isso foi à algumas semanas..E ele se comportou, Julia. Até agora estava muito comportado, não fugia para muito longe. No máximo trocava de prateleira. Mas isso é porque é ruim viver entre dois livro, mesmo se for entre dois romances do Cortázar. Estava muito comportado, Julia, estava. No passado, mesmo que imperfeito. Ontem ele fugiu de novo. Abri minha mochila e ele simplesmente não estava lá, mana. Sumiu, pluft! Nico e eu achamos que nesses dias quentes, em que o tédio fica preso entre os ponteiros do relógio e o tempo custa a passar,  O Jogo da Amarelinha goste de se esconder, como se fosse uma palheta ou uma tampa de caneta. Convidando-nos à uma nova busca pelas ruas e estações de metrô.Então, num piscar de olhos, estamos novamente jogando com o livro. Procurando-o por toda a cidade. Mas isso deve ser por causa do calor.Afinal, deve ser difícil viver espremido entre dois livros, mesmo se forem de Cortázar, nesses dias tão quentes e tediosos...