Foi uma terça. Sim, uma terça, oito de fevereiro do ano de dois mil e dez. Lembro-me muito bem desse dia, por que foi o segundo dia dos três melhores anos da minha vida. E eu estava no corredor central da ETECAP quando reparei pela primeira vez nele. Um veterano apontou vagamente para o senhor que descia as escadinhas que levam do primeiro pátio ao dito corredor e disse: Esse é o Orestes , o melhor professor de história que vocês podem ter nessa escola!. O tal professor vestia-se com calça verde e uma camisa de flanela, tinha o cabelo raspado e usava óculos de lentes bem grossas e de armações pretas, andava meio curvado, com uns papéis nas mãos.
E esse mesmo professor entrou na sala 411 logo após o sinal . Reparei melhor nele. As feições muito finas, um nariz diminuto, bochechas rosadas, olhos de um azul indescritível ampliados pelas lentes dos óculos. Eu, que sempre soube que me tornaria uma historiadora, demonstrei, desde o início, um interesse muito grande em cada gesto dele. Orestes, com aqueles passos meio arrastados, encaminhou-se para o centro da sala e aguardou o silêncio. Pensei que ele iria começar uma lenga lenga sobre como se divide o tempo, riscar aquela linha tão chata e comum e marcar algumas datas.Mas não.Quando ele veio, iniciou sua fala. Fala da qual não me lembro muito, por que as palavras do Orestes nunca passaram pelos meus ouvidos. Sempre vieram direto para o lado esquerdo, sempre esquerdo, do meu peito. E aquela aula, aquele jeito tão apaixonado que Orestes fazia com que as palavras saíssem de seus lábios e me encontrassem, foram me consumindo. Eu só conseguia concordar, quase que me levantando de tamanha empolgação. O olhava entre um sentimento súbito de admiração e um atordoamento mais súbito ainda. Olhava aqueles olhos que faiscavam conforme aquela voz que ia se inflamando. Não percebi o tempo passar e quando dei por mim o sinal ( Uma censura! como repetia sempre Orestes) soou, anunciando a segunda aula. Ele então nos olhou uma última vez e com uma voz um pouco mais branda disse : Sei que talvez a maioria de vocês não tenha entendido muita coisa do que eu falei, mas se um de vocês apenas conseguiu entender, então sei que o que eu disse não foi em vão.
Ele então se virou pra juntar suas coisas e voltou-se para a saída. Me levantei, com um pouquinho de pressa, é verdade, e caminhei até ele. Quando o alcancei, já estávamos no corredor. E a única coisa que eu consegui dizer foi : Professor, eu entendi. Orestes então, com aquele jeito sempre meio encabulado, sorriu.
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