quinta-feira, 9 de outubro de 2014

Sobre o caminho pra sua casa

O caminho , teoricamente, é muito simples: descer do ônibus, atravessar as três faixas da avenida, dobrar a direita... Entrar no bairro, sempre pacato. Cruzar, então, mais uma rua, dobrando mais uma vez à direita.
Entrar numa outra rua , curta e cinza, e ter aquela sensação de estranha de estar na rua de casa. Aquela , curta e cinza, que sempre será a minha, independente do tempo e das mudanças. A percorro com passos lentos. Saboreio o gosto de finais de dois mil e doze,  quando tudo era muito leve, como um prenúncio do caos, que ainda estava distante o suficiente para nos dar relativa paz.. Uma calmaria antes das tempestades . Aquele final de dois mil e doze em que o caminho pra uma das minhas casas (aquela última, verdinha, que ficava bem perto da sua), por um misto de conveniência e felicidade, me conduzia justamente por aqui.
Então chego na esquina. Sempre paro nessa esquina, porque a última rua sempre foi a mais difícil de transpor. Se continuo pela calçada, virando à esquerda, sigo para o vale tranquilo,posso cruzá-lo, subir uma última ladeira e afogar-me em mais uma dessas nostalgias. Olho então o espigão do outro lado do riacho, procurando ainda me ver. Não vejo.
Olho então pra frente, pro outro lado da rua. Vejo sua casa, de frente vazada, como a casa que fica na minha rua,  com um banquinho na calçada, convidando o descanso e a conversa. Fico parada, contemplando o momento em que tudo parece perfeito demais: a cor, a luz, o som no vale... Nessas horas sempre penso em ir embora. Virar-me, ou pro vale , ou pra avenida, e sumir. Mas já anunciei minha chegada ao descer do ônibus e você sabe que tenho pavor de apertar a campainha, então já deve estar esperando-me no portão. Mas sempre posso hesitar um pouquinho mais do que devia, porque não é segredo pra ninguém que quero seguir, que quero lhe ver. Olho para o vale, e prometo que é a última vez, o saúdo. Sigo, atravessando a última rua. E penso até que lhe vejo vindo ao meu encontro, toda de preto, descalça. Olha, e não é que é você mesma? Acho melhor deixar de considerações, então, e partir logo pra esse abraço que aguardamos faz um tempinho.