Desembarque do lado esquerdo do meu peito.
Meu coração já está lotado.
E não suporta mais,
o pobre diabo,
bater-se por sua causa.
Numa última tentativa,
desesperado,
cai ao seus pés.
Com fio de voz que lhe sobra, implora:
Suma de uma vez!
Vá embora!
domingo, 28 de julho de 2013
sábado, 20 de julho de 2013
Ibérica
Éramos
E não Somos
Pretérito imperfeito do indicativo
O mesmo pretérito infinito
Nunca o presente
Nem ao menos um passado acabado
Sempre o Éramos
Nunca o Somos
A eterna sensação de perder,
Por uma semifusa,
Alguma coisa no tempo.
Por ter hesitado
ou
Se adiantado no momento errado
Perco o tempo
Esse óleo rançoso
Escorre pela minha testa
Cai sobre meus olhos
Essa máscara de lembranças
Tapa minha visão
Rouba de mim um futuro
(Que eu mesma forjei)
Sempre éramos
Nunca somos
E não Somos
Pretérito imperfeito do indicativo
O mesmo pretérito infinito
Nunca o presente
Nem ao menos um passado acabado
Sempre o Éramos
Nunca o Somos
A eterna sensação de perder,
Por uma semifusa,
Alguma coisa no tempo.
Por ter hesitado
ou
Se adiantado no momento errado
Perco o tempo
Esse óleo rançoso
Escorre pela minha testa
Cai sobre meus olhos
Essa máscara de lembranças
Tapa minha visão
Rouba de mim um futuro
(Que eu mesma forjei)
Sempre éramos
Nunca somos
quinta-feira, 18 de julho de 2013
Instruções para criação de memórias
A criação de memórias é uma das atividades mais complexas que existem no mundo. Isso se deve ao fato das memórias (esses seres minúsculos, de uma cor amarelo vivo que habitam nosso cérebro e por vezes nossa caixa torácica ) serem muito complicados e portarem um humor extremamente variável.
Para criá-las de maneira adequada, o criador dele dispor de muito tempo livre, pois as memórias são demasiado carentes e necessitam de atenção a todo instante. Quando, por qualquer motivo, o criador não dá sua dose diária de atenção ( explicarei mais adiante como tal dose deve ser ministrada ) para as memórias, elas tornam-se muito rebeldes.
Essa rebeldia, misturada com a alta sensibilidade das memórias, tem níveis variados. As memórias podem, por exemplo, deixar de fornecer lembranças ao criador , coisa muito comum nos dias de prova e naqueles dias que devemos renovar os livros de alguma biblioteca. Elas também podem se comportar como as palhetas, escondendo-se de tal forma que é impossível localizá-las. Nesses casos a atitude mais correta é esperar que elas voltem, talvez num bolso daquela calça que nunca usamos, ou quem sabe no fundo na nossa mochila. Porém, nos casos mais extremos, quando as memórias ficam meses sem receber de seu criador nenhum pedacinho de tempo ou atenção, elas simplesmente abandonam o criador para todo sempre, deixando-o desolado sem lembrar-se de nada. Nem mesmo do próprio nome.
Afim de não construir uma relação conturbada com suas memórias, o criador deve então fazer um convite à um jogo de memórias. É um jogo muito simples de se aprender a jogar, mas difícil por que exige uma enorme concentração e parceria com suas memórias. As partidas podem ser muito rápidas ou infinitas, tudo depende da disposição do criador para o jogo, pois as memórias sempre estão entusiasmadíssimas para uma partida. O jogo começa quando as memórias desafiam o criador a lembrar dos mais insignificantes detalhes de qualquer coisa que ele já tenha vivido. Por exemplo, o desafiam a lembrar-se do sobrenome do seu professora de geografia da sétima série, ou então que meias usava no dia que fez isso ou aquilo. As partidas só terminam quando, num misto de alívio e vitória, o criador consegue recuperar a informação buscada no meio de tantas outras. Os desafios vão ficando cada vez mais complexos, com o passar das partidas. Algumas vezes a partida sós e encerra quando o criador (agora mais do que nunca um jogador) reconstrói dias inteiros. Como por exemplo o que ele fez à quatro anos atrás nessa mesma data, o que comeu, o que vestiu, ao que falou, com quem estava, como o clima estava.
A única regra rígida desse jogo é a impossibilidade de consultar qualquer tipo de fonte. Lembrar é algo que não permite qualquer pensamento lógico ou qualquer tipo de cadeia de pensamento. Lembrar é , antes de tudo, instinto. Por isso o jogador deve se deixar levar por seu instinto durante as partidas até esbarrar num inútil e trivial detalhe que ele não consegue reconstruir : qual música eu escutava naquele primeiro de dezembro enquanto estava no 2.49? Uma parida como essa pode durar a vida inteira.
São inegáveis os benefícios de memórias saudáveis, muito dóceis e companheiras. Podem nos dar momentos muito contentes, reviver momentos felizes com uma espantosa qualidade de detalhes, lembrar-se de qualquer sorte de coisas. Mas que fique bem claro que memórias saudáveis não são como as de Funes, o memorioso, um viciado no jogo da memória que acabou por torná-las monstrinhos petulantes e famintos de atenção. Memórias saudáveis não nos fazem lembrar de tudo, mas sim saber onde buscar informações sobre isso e aquilo...
Para criá-las de maneira adequada, o criador dele dispor de muito tempo livre, pois as memórias são demasiado carentes e necessitam de atenção a todo instante. Quando, por qualquer motivo, o criador não dá sua dose diária de atenção ( explicarei mais adiante como tal dose deve ser ministrada ) para as memórias, elas tornam-se muito rebeldes.
Essa rebeldia, misturada com a alta sensibilidade das memórias, tem níveis variados. As memórias podem, por exemplo, deixar de fornecer lembranças ao criador , coisa muito comum nos dias de prova e naqueles dias que devemos renovar os livros de alguma biblioteca. Elas também podem se comportar como as palhetas, escondendo-se de tal forma que é impossível localizá-las. Nesses casos a atitude mais correta é esperar que elas voltem, talvez num bolso daquela calça que nunca usamos, ou quem sabe no fundo na nossa mochila. Porém, nos casos mais extremos, quando as memórias ficam meses sem receber de seu criador nenhum pedacinho de tempo ou atenção, elas simplesmente abandonam o criador para todo sempre, deixando-o desolado sem lembrar-se de nada. Nem mesmo do próprio nome.
Afim de não construir uma relação conturbada com suas memórias, o criador deve então fazer um convite à um jogo de memórias. É um jogo muito simples de se aprender a jogar, mas difícil por que exige uma enorme concentração e parceria com suas memórias. As partidas podem ser muito rápidas ou infinitas, tudo depende da disposição do criador para o jogo, pois as memórias sempre estão entusiasmadíssimas para uma partida. O jogo começa quando as memórias desafiam o criador a lembrar dos mais insignificantes detalhes de qualquer coisa que ele já tenha vivido. Por exemplo, o desafiam a lembrar-se do sobrenome do seu professora de geografia da sétima série, ou então que meias usava no dia que fez isso ou aquilo. As partidas só terminam quando, num misto de alívio e vitória, o criador consegue recuperar a informação buscada no meio de tantas outras. Os desafios vão ficando cada vez mais complexos, com o passar das partidas. Algumas vezes a partida sós e encerra quando o criador (agora mais do que nunca um jogador) reconstrói dias inteiros. Como por exemplo o que ele fez à quatro anos atrás nessa mesma data, o que comeu, o que vestiu, ao que falou, com quem estava, como o clima estava.
A única regra rígida desse jogo é a impossibilidade de consultar qualquer tipo de fonte. Lembrar é algo que não permite qualquer pensamento lógico ou qualquer tipo de cadeia de pensamento. Lembrar é , antes de tudo, instinto. Por isso o jogador deve se deixar levar por seu instinto durante as partidas até esbarrar num inútil e trivial detalhe que ele não consegue reconstruir : qual música eu escutava naquele primeiro de dezembro enquanto estava no 2.49? Uma parida como essa pode durar a vida inteira.
São inegáveis os benefícios de memórias saudáveis, muito dóceis e companheiras. Podem nos dar momentos muito contentes, reviver momentos felizes com uma espantosa qualidade de detalhes, lembrar-se de qualquer sorte de coisas. Mas que fique bem claro que memórias saudáveis não são como as de Funes, o memorioso, um viciado no jogo da memória que acabou por torná-las monstrinhos petulantes e famintos de atenção. Memórias saudáveis não nos fazem lembrar de tudo, mas sim saber onde buscar informações sobre isso e aquilo...
terça-feira, 16 de julho de 2013
Uma carta não enviada
Não. Nunca foi uma escolha. Meus gestos, seus gestos, os gestos dele, nunca foram por escolha. Nunca, por que foram por Amor. E será o Amor algo que se possa escolher??? Sinceramente, creio que não.Se amamos de verdade, como sei que amamos, não escolhemos.
Não escolhi, de modo algum, reparar naqueles olhos. Nem escolhi fazer para o que chamava de "o Aquariano" aqueles péssimos sonetos. Como sei que você também não escolheu reparar naqueles olhos...
Ah...Seria tão mais fácil se tivéssemos escolhido!Evitaríamos tanta coisa... Seriamos mais um caso corriqueiro, desses que passam por vezes em programas sensacionalistas por acabarem numa briga de garotas por um cara, ou, nos casos mais drásticos, na morte de alguém. Se fosse uma escolha, nossa história seria incrivelmente, pateticamente, entediantemente comum. Seria uma dessas histórias feias...
Mas nós amamos. E o Amor é tal qual uma chuva que pega algumas pessoas, sempre alienadas à previsão do tempo, desprevenidas. Uma dessas chuvas que nos lava, que encharca nossos ossos.
Se carregássemos nossos guarda-chuvas, ou capas, no momento que, na esquina da Benjamin Constant com a Glicério, o temporal se iniciara e ,por qualquer motivo, resolvêssemos nos molhar até os ossos nossos gestos não seriam de amor. Por que escolhemos nos molhar, por preguiça de vestir a capa ou por achar que a calçada da Benjamin é demasiado estreita para se caminhar com um guarda-chuva aberto, não importa muito. E não escolhemos. Nós três fomos pegos de surpresa pela chuva. Sei disso. Foi um arrebatamento, não uma escolha. Nunca uma escolha.Por que se escolhêssemos, isso poderia se tornar uma inimizade, muito comum no nosso mundo nesse mundo que competimos até por amor. Competir por amor, onde já se viu? Amor é a coisa mais libertária que existe! Amar não comporta competição...
Mas nós amamos...E todas as frases dessa história, minha renuncia, seus poemas, as músicas dele, nossas cartas. Cada ponto e cada palavra que escrevemos foram, e espero que ainda sejam, gestos de Amor
Não escolhi, de modo algum, reparar naqueles olhos. Nem escolhi fazer para o que chamava de "o Aquariano" aqueles péssimos sonetos. Como sei que você também não escolheu reparar naqueles olhos...
Ah...Seria tão mais fácil se tivéssemos escolhido!Evitaríamos tanta coisa... Seriamos mais um caso corriqueiro, desses que passam por vezes em programas sensacionalistas por acabarem numa briga de garotas por um cara, ou, nos casos mais drásticos, na morte de alguém. Se fosse uma escolha, nossa história seria incrivelmente, pateticamente, entediantemente comum. Seria uma dessas histórias feias...
Mas nós amamos. E o Amor é tal qual uma chuva que pega algumas pessoas, sempre alienadas à previsão do tempo, desprevenidas. Uma dessas chuvas que nos lava, que encharca nossos ossos.
Se carregássemos nossos guarda-chuvas, ou capas, no momento que, na esquina da Benjamin Constant com a Glicério, o temporal se iniciara e ,por qualquer motivo, resolvêssemos nos molhar até os ossos nossos gestos não seriam de amor. Por que escolhemos nos molhar, por preguiça de vestir a capa ou por achar que a calçada da Benjamin é demasiado estreita para se caminhar com um guarda-chuva aberto, não importa muito. E não escolhemos. Nós três fomos pegos de surpresa pela chuva. Sei disso. Foi um arrebatamento, não uma escolha. Nunca uma escolha.Por que se escolhêssemos, isso poderia se tornar uma inimizade, muito comum no nosso mundo nesse mundo que competimos até por amor. Competir por amor, onde já se viu? Amor é a coisa mais libertária que existe! Amar não comporta competição...
Mas nós amamos...E todas as frases dessa história, minha renuncia, seus poemas, as músicas dele, nossas cartas. Cada ponto e cada palavra que escrevemos foram, e espero que ainda sejam, gestos de Amor
quinta-feira, 11 de julho de 2013
Quadras da saudade II
Naquela época
Todos os dias
Todos os acordes
Vibravam em amarelo
Nas salas, ruas e corredores
Sentávamos ao chão
(sem pudor algum)
Pois assim nos sentíamos mais humanos
E festejávamos
Sem ter nenhum motivo
Afinal, pra que um motivo?
Éramos felizes e ponto de exclamação!
E recitávamos nossos amores
Desenhávamos, dedilhávamos,
Por cima das árvores
Por todos os cantos
Todos os dias
Todos os acordes
Vibravam em amarelo
Nas salas, ruas e corredores
Sentávamos ao chão
(sem pudor algum)
Pois assim nos sentíamos mais humanos
E festejávamos
Sem ter nenhum motivo
Afinal, pra que um motivo?
Éramos felizes e ponto de exclamação!
E recitávamos nossos amores
Desenhávamos, dedilhávamos,
Por cima das árvores
Por todos os cantos
Quadras da saudade
Naquela época
Nossos pés eram livres pra brincar na grama
Sem serem repreendidos pelos sapatos
E todos nós éramos só abraços
Naquela época
Era simples demais sorrir
Simples de mais amar
E como amávamos!
Naquela época
Qualquer coisa
Flores, cores e som
Virava arte em nossas mãos
Naquela época
Trasbordávamos poesia
E nossos corações eram tão grandes
Que não mais cabiam em nossos peitos
Nossos pés eram livres pra brincar na grama
Sem serem repreendidos pelos sapatos
E todos nós éramos só abraços
Naquela época
Era simples demais sorrir
Simples de mais amar
E como amávamos!
Naquela época
Qualquer coisa
Flores, cores e som
Virava arte em nossas mãos
Naquela época
Trasbordávamos poesia
E nossos corações eram tão grandes
Que não mais cabiam em nossos peitos
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