domingo, 27 de fevereiro de 2011

A cigarra e a Formiga

essa foi a coisa mais próxima à perfeição que já fiz...não devia ter lido tanto Bocage

A cigarra e a Formiga

Conta-se uma história
(corroída pelos tempos)
Que se perde na memória,
Sobre uma noite de fortes ventos,
Onde se encontram dois personagens.
Um repleto de contentamento
E outro consumido pela paisagem.
Havia uma cigarra que amava o pensamento
Do canto e liberdade.
E havia uma formiga que achava um tormento
Sua rotineira realidade


Pela manhã um certo dia
Enquanto trabalhava
A formiga um canto ouvia.
E o canto continuava
Com o passar das horas,
Mas a formiga só pensava
Em largar tudo e ir embora.
Enfim a operária do emprego saiu
E andando pela flora
Numa árvore descobriu
A cigarra em cantoria.
Ao ver a formiga, ela sorriu
E ofereceu uma trova de cortesia,
Que, rancorosa a formiga respondeu:
“ Eu trabalho e você em boemia?
Eu me esforçando e você feito Romeu!!
Me ensinaram que só trabalhando
Que se conquista o que é seu!!”
A formiga, raivosa, continuou olhando
A trova que a cigarra cantou:
“Minha Amiga, não entendo.
Por que tanta raiva me mostrou?
Fiz-lhe algum mal?”
“Esse banjo o dia inteiro tocou
E desafinado cantou como tal
Essa medíocre melodia
Que não pertence a nenhum animal.”
“ O que faço é Poesia
Canto o mundo!
Colho o dia!”
A formiga demorou quase um segundo
Para virar as costas e seguir andando
No caminho escuro
Do seu formigueiro. E sempre escutando
A cigarra à plenos pulmões
Com os ventos cantando.
E foram tantas as canções,
Pela noite e madrugada,
Que a formiga nos lençóis
Amanheceu já zangada.
Ao chegar à empresa
A formiga revoltada
Nada fez a não ser espalhar tristeza.
Era tamanho o mau Humor
Que toda a fineza
Deu lugar ao topor.
Na linha de produção,
No pátio, o sentimento era de dor,
Sem motivo ou explicação.
Mas no fim do expediente
A formiga sem emoção,
Encontrou a cigarra impertinente.
A operária fadigada
Ouviu a cigarra pacientemente:
“Esperava sua chegada,
Pois acho que começamos errado,
Nem fomos apresentadas”
Sentaram-se então, lado a lado
E começaram a conversar
Sob o céu estrelado
Sobre as coisas que a vida tinha a reservar.
A formiga cansada, contava
Que era operária e estava a esperar
O dia que nunca chegava,
O dia de o tempo ser dela,
Do descanso que tanto esperava
De uma vida cheia de cautela.
A cigarra na prosa emendou
E disse que era poeta
Vivia como Deus mandou
Sem querer saber do futuro
E nem daquilo que já passou.
Sua vida não era cercada por muros
Nem cadeados, nem portão.
Não queria saber do escuro
Nem de senhor ou patrão!
A formiga atenciosa escutava
Aquilo com tamanha emoção,
A cigarra poeta falava.
E quando no meio do céu
A lua chegava,
A formiga encerrou o cordel
E seu caminho seguiu.
A madrugada caiu como um véu
Assim como as canções que ela ouviu
Sobre um mundo diferente
Daquilo que sempre existiu
Passaram então, de repente
Dias, semanas à fio,
De encontros contentes
Da nova amizade que surgiu
Em meio a realidades
Separadas por anos mil.
Pois o que conto agora, em verdade
Mudará a amiga formiga
Que chegou com uma novidade
Que deixou-a aflita.
Até que a cigarra explicou
Que a crise que o formigueiro enfrentava
Acontecia por que alguém a causou.
No mundo onde se situava
No formigueiro em ela que vive,
A operária não imaginava
Como se convive
Com a enorme pobreza
Que pelas ruas existe.
“Enquanto na Realeza,
A folgada rainha ostenta
O que conseguiu ( com grande moleza)
Nas costas de quem sempre a sustenta:
Por ventura, vocês soldados e operárias
Classe que todo serviço aguenta
para conseguir de forma precária
Nada mais que sua subsistência!!!”
E a formiga percebeu
Que tudo que produzia
Nunca lhe pertenceu
(Nem mesmo por um dia).
Aquilo tudo era seu!!
A cigarra falou em Mais-valia,
A formiga logo entendeu.
O tempo e a liberdade
A rainha bem escondeu
Como a pura verdade.
A formiga agora ciente
Logo esclareceu
As operárias carentes
De qualquer noção.
A nação do povo unido
Pra levantar uma insurreição!
Então a formiga branindo
Suas ferramentas
As ruas foram subindo
(ao som da cigarra contenta)
Em direção ao castelo
Da rainha tormenta,
Que com um Martelo
De fome o povo matava
Enquanto fazia elos
Com aqueles que pra ela importava.
Ao ver o povo na Porta
( que com força a empurrava)
A rainha fingiu-se de morta
E saiu de anti-mão
Levando consigo a horda
Que o povo chamou de ladrão.
Foi assim que a cigarra formosa
Cantando no limite do pulmão
Uma canção honrosa
Sobre a revolução!!
Sob os fortes ventos
Daquela noite de inverno,
Só havia um pensamento
que não era nada interno:
Liberdade amor!
Sem gravatas, nem ternos!
Carpe Diem, Fervor!
Tudo em nome da igualdade
Sem sentir mais temor
Em contato com a verdade.

Nossa história aqui não termina
Apenas muda de cidade,
Cuja cigarra seguia
Levando em sua bagagem
Sua ideologia.

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